sexta-feira, 2 de novembro de 2018

al-Faghar (4)



A Flor de Damasco




" Na lua de Sâfar um poder chegou a mim
que não me foi nem doce nem amargo..."

Dizia Ibn Qasi nos finais de Agosto de 1151 contemplando-a pela última vez no Salão dos Poetas do Palácio Xarajibe (1) pressentindo já punição vingativa por parte dos seus inimigos. Pouco depois era assassinado à traição por partidários dos integristas almôadas na alcáçova do seu palácio em Silves. No mês de Jumâda, tal como o Mestre sufi havia profetizado:

" ...em Jumâda por fim terminará
o tempo que a loucura apagará."


Com a morte de Ibn Qasi foi interrompida a presença da Ordem dos Cavaleiros Templários Portugueses em terras do Garb al-Andaluz. Foram precisos mais 38 anos para que regressássemos a estas paragens, não como aliados mas como conquistadores. Em 1189, já no reinado de D. Sancho I, Silves foi tomada em condições semelhantes à de Lisboa.

"Vindas do norte da Europa (da foz do rio Escalda) começam a concentrar-se em Lisboa as naus dos cruzados que iriam formar a frota cujo destino era, uma vez mais, a terra santa. O rei D. Sancho I aproveitando esta força militar em trânsito, propõe a sua colaboração no ataque à cidade de Silves. Antecipando-se, 55 naus nórdicas zarpam à socapa uma semana antes e vão atacar Alvor de surpresa provocando um autêntico massacre na cidade, matando perto de 5.000 pessoas não perdoando a sexo nem idade. Os poucos habitantes que conseguem sobreviver refugiam-se em Silves que prepara a suas defesas. No entanto, a força naval dos cruzados parte para o Oriente saciada de sangue e nutrida do saque. Silves relaxa e baixa a guarda pensando que o pior já passara. Mas o pior ainda estava para vir..."

Depois da saída de Lisboa, a nova frota composta agora de 37 naus grandes e muitas outras perfazendo mais de uma centena, passou frente às ruínas ainda fumegantes de Alvor e estacionou na foz do rio Arade. No dia 21 de Julho de 1189 iniciaram os primeiros ataques às ameias do castelo de Silves. A 29 de Julho já se encontravam concentrados no local os efectivos portugueses constituindo um significativo reforço militar terrestre. O exército do Rei ajudado pelas alas das Ordens Militares de Santiago, Templo, Avis e Hospital lançaram-se às muralhas viradas a norte. A sul os cruzados redobraram os ataques. Para os mouros sitiados, abriram-se as portas do inferno...

"No domingo, dia de S. Felicíssimo e Agapito (6 de Agosto) nós os Teutónicos logo de madrugada assentámos as máquinas de assalto e uma, a que chamamos ouriço, contra o muro da Coiraça, entre duas torres, com o intento de lhe abrir brecha..."

Assalto às muralhas de Silves

Perante as constantes e violentas vagas de assalto às suas muralhas, Silves capitulou nos primeiros dias de Setembro de 1189 exausta, faminta, doente, "...bradando do muro pela gente d'El Rei para tratar de entregar a cidade."  A partir daqui começaram as negociações que terão sido mais difíceis entre D. Sancho e os cruzados do que com os próprios muçulmanos. O monarca português propôs que os habitantes pudessem sair da fortaleza com os seus haveres. Chegou mesmo a prometer aos nórdicos 10.000 cruzados em ouro que estes recusaram. Queriam pilhar a cidade. Ficou então assente que os infiéis sairiam da fortaleza "...somente com o que tivessem vestido, ficando El-Rei com a cidade e nós (cruzados) com o despojo que tivesse dentro."  No entanto, o comportamento desta força mista de cristãos cruzados e outros, conforme o registo de um cruzado anónimo, foi deplorável. "...a nossa gente miúda, porém, descarada e vergonhosamente começou a roubá-los como quebra de convenção e a maltratá-los com pancadas, do que El-Rei de Portugal se agastou muito."  Perante esta atitude D. Sancho acabou por decidir  não entregar a cidade para saque apesar dos protestos dos cruzados. "...entregámos-lhe a cidade ainda recheada de riquezas, para que fizesse a partilha connosco, como cumpria a Magestade Real, havendo respeito assim ao trabalho, como ao dano que havíamos sofrido. El Rei, porém, tomando tudo para si, nada nos deixou, e por isso os cruzados, tratados tão injuriosamente, se separaram dele menos amigos do que dantes estavam."

Ficaram assim preservados muitos dos tesouros existentes na cidade, principalmente os do famoso Palácio das Varandas. E é aqui que começa a rocambolesca história da nossa Flor de Damasco, descrita como a Musa Inspiradora dos poetas árabes de Silves.

"Nenhum de nós ficava indiferente à sua beleza inspiradora, à forma feminina de tamanho natural que se adivinhava nos contornos daquela árvore de ouro puro, ofertada em bruto pela natureza tal qual a retiraram da terra mãe e depois cravejada de pedras preciosas pela mão do artista que a vestira. Era um tesouro digno do Paraíso, e que quase ofuscava o olhar indigno dos poetas..."

Como teria sido a mesquita de Silves

Purificada a mesquita e transformada esta em templo cristão, nomearam D. Nicolau (um clérigo flamengo) Bispo de Silves. Amigo da opulência, tratou logo de reclamar para si muitos dos objectos valiosos do Palácio das Varandas entre eles a Flor de Damasco ou Rosa de Damasco como passaram a chamar-lhe. D. Nicolau tinha um sobrinho, Theobaldo, que decidira não acompanhar a frota dos cruzados e voltar para as terras do Norte. Aproveitando a oportunidade, o bispo pediu ao sobrinho que, junto com os haveres deste, transportasse também umas relíquias mouriscas para si. E foi assim que a Flor de Damasco embarcou discretamente desaparecendo para sempre. Não chegou a terras flamengas. Por alturas de Peniche e antes de cruzar as Berlengas, duas naus vindas do castelo da Touria (2) atravessaram-se no caminho de Theobaldo, tendo-o aliviado gentilmente do peso de tais haveres.

viva Abú Bakr!
saúda por mim, asinha,
os queridos lugares de Silves
e diz-me se a saudade deles
é tão grande quanto a minha.

saúda o Palácio dos Balcões,
da parte de quem não esqueceu
a morada de gazelas e leões,
salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava
entre ancas que lá achava
e bem estreitas cinturas...

Al-Mu'tamid

"Rosa, Flor,
de Damasco já esquecida,
na Flor da Rosa... adormecida"

________________________________________
(1) - O célebre Palácio das Varandas do Castelo de Silves, com a sua monumental escadaria ladeada por leões de porcelana dourada. Situava-se na medina, a poente do alcácer e contíguo à sua muralha, nada tendo a ver com as dependências achadas recentemente junto à muralha oriental.
(2) - Castelo Templário da Atouguia da Baleia.


Fr. João do Paço
cronista-mor

terça-feira, 30 de outubro de 2018

al-Faghar (3)



A oferta de Afonso I




Ibn Qasi prometeu e cumpriu. Os seus muridin participaram na tomada de Santarém aniquilando a guarda no interior das muralhas e franqueando as portas da fortaleza às tropas cristãs. Santarém caiu com o mínimo de sangue derramado. Seguiu-se Lisboa onde a situação foi bem mais complicada devido à interferência dos cruzados que, vindos do norte da Europa em trânsito para a terra santa, contra a vontade das tropas portuguesas, se impuseram no cerco, roubaram, violaram e mataram indiscriminadamente após a tomada da baixa da cidade. Os guerreiros do Mestre sufi, embora em pequeno número, cumpriram a sua missão no sector oriental, nas muralhas do alcácer. E Lisboa caiu também na posse de Afonso I de Portugal.

Na sequência destas victórias e logo após a tomada pacífica de Sintra e da entrega das restantes fortalezas árabes ao longo da linha do Tejo, delegações Templárias foram enviadas a Évora, a al-Batun (Viana do Alentejo) e a wadi-Mihrab (Odemira) para agradecer a participação muridin e prestar contas do sucedido em Lisboa. Ibn Qasi compreendeu e aceitou as explicações reafirmando a sua vontade de continuar a cumprir o pacto secreto com Afonso I. Propôs até aos cavaleiros do Templo que estabelecessem discretamente um posto avançado em al-Batun sob sua protecção se assim o desejassem. Os Irmãos aceitaram, criando ali uma pequena "Comenda" secreta em pleno coração do Alentejo muçulmano. Ibn Qasi também convidou Afonso I a encontrar-se pessoalmente com ele em local à escolha do monarca português. Em território cristão inclusive, se assim o entendesse.

Afonso I de Portugal tinha uma personalidade invulgar. Era nobre, bravo, estratega inteligente e muito temerário. Arrojado até, como se mostra na seguinte narrativa...

"Dom Afonso agradado com Ibn Qassi mandou-nos preparar para oferta um cavalo branco puro lusitano um escudo e uma lança um peitilho heráldico e um anel com os símbolos místicos comuns à cavalaria espiritual para selar em definitivo o pacto entre ambos. Albur foi o lugar combinado para o encontro. Éramos ao todo sete cavaleiros encarregues de entregar pessoalmente a oferta simbólica ao Mestre Sufi. Tendo recebido deste o prometido salvo-conduto para circularmos em paz por todo o território sob o seu domínio, partimos para terras do sul..."

 Vestígios do Alcácer do castelo de Alvor

A delegação era composta por quatro cavaleiros Templários e três cavaleiros do rei. Todos viajaram sob escolta muridin até que se apresentaram discretamente ao alcaide de Alvor que os conduziu à presença de Ibn Qasi. Este, que já os esperava, recebeu-os com todas as honras no alcácer da cidade (1). Mas continuemos a narrativa...

"...à chegada desembarcámos num pequeno ancoradouro de pedra (2) onde nos esperava o Alcaide em pessoa acompanhado de alguns nobres locais e uma pequena escolta. Trazendo o cavalo e as oferendas fomos conduzidos por um passadiço de madeira que percorria todo o fosso junto da muralha norte (3) até às portas do nascente (4) . Por três dias e três noites ali ficámos albergados no alcácer com todas as honras e com toda a sorte de entretenimentos tendo por anfitrião o próprio ibn Qassi. Antes de partirmos lavrámos em conjunto o documento do pacto de irmandade e recebemos das mãos do Mestre sufi algumas ofertas simbólicas da futuwah (5)  entre elas uma saif (6) com os selos de Afonso I e de Ibn Qassi nela gravados.  Às palavras de Ibn Qassi que preferira tê-la entregue pessoalmente ao rei Afonso; respondeu um dos cavaleiros do rei ali presentes que 'tal acabara de ser feito'. O Mestre sufi levantando-se abraçou emocionado o cavaleiro reconhecendo-o. Era el-Rei Afonso de Portugal..."

Alvor teria tido um fosso natural como este que a rodeava a norte

Vestígios da estrutura do embarcadouro (lado norte)

O documento lavrado em ambos os idiomas e selado com os respectivos símbolos, foi assinado pelos presentes. Da parte dos nossos constam as seguintes assinaturas:

(Testemunhando pela Ordem do Templo)

Rodrigo Viegas
Gonçalo Anaya
Martim Gonçalves
Pedro Gaudins

(Conferindo pelo Rei)

(Pero) Afonso Monis
Pero Pais
Gonçalo de Souza



________________________________________
(1) - Alvor na época era uma cidade com cerca de 5.000 habitantes. Para além da Medina (cidade velha) o resto da cidade prolongava-se para norte até onde são hoje os Montes de Alvor, protegida por uma cerca amuralhada.
(2) - Ainda existem vestígios desse ancoradouro numa reentrância da ria com ligação por uma rampa à actual igreja matriz.
(3) - Este fosso era uma falha natural, preenchida pelas águas da ria, que rodeava toda a zona norte da cidadela muçulmana transformando-a numa espécie de ilha. Começava no dito embarcadouro e prolongava-se até à Porta do Sol, a nascente, onde hoje é o rossio de Alvor.
(4) - Portas do Nascente ou Porta do Sol, que ficava no lado Oriental da cidadela; a entrada principal para quem vinha de Burjmunt (Portimão). Era servida por uma ponte (já desaparecida) que atravessava a Ribeira dos Moinhos. As outras duas entradas eram a Porta da Serra que ligava a norte o resto da cidade por uma ponte de madeira sobre o fosso e a Porta do Mar que dava directamente para a praia da ria.
(5) - Futuwah; cavalaria espiritual islâmica.
(6) - Saif; também chamada cimitarra. Espada de lâmina curva utilizada pelos guerreiros muçulmanos.


Fr. João do Paço
cronista-mor

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

al-Faghar (2)




Os Monges Negros de Sagres



Após a batalha de Ourique os Templários Portugueses regressaram a Soure trazendo consigo vinte Muridin que o Mestre acolhe na Sede da Ordem por uns tempos. Estes, aos poucos, foram-se instalando discretamente em Moçab-d'har onde montaram a sua base de acção partilhando em segredo as movimentações inimigas na zona.

Em 1140 testam-se as defesas da Lisboa árabe num ataque cristão que serve para infiltrar alguns Muridin junto com os camponeses que se refugiam dentro das muralhas da cidade. Em 1144 porém, Soure sofre um pesado ataque por parte das tropas de Abu Zacaria alcaide de Santarém que consegue assim punir a ousadia dos Templários por terem participado na batalha de Ourique.

Em resposta, sai de Coimbra uma força cristã que lança uma série de ataques nos arrabaldes de Santarém simulando querer recuperar os prisioneiros de Soure. Simulado é também o ataque ao castelo de Moçab-d'har de onde saem os Muridin misturados com a população que em fuga se refugia em Santarém. Os monges guerreiros de Ibn Qasi estão agora dentro das muralhas de ambas as cidades e esperam a hora de actuar.

É ainda neste ano de 1144 que Ibn Qasi volta a pedir auxílio a Dom Afonso I que lhe envia algumas tropas, essencialmente cavaleiros do Templo. É neste acto de entreajuda militar que os Templários vêem a oportunidade de saber mais sobre a questão das relíquias cristãs ocultas em Sagres. Ibn Qasi acede de boa vontade à pretensão dos aliados irmãos do Templo e volta a indicar o velho marabuto (homem santo), onde cinco anos antes havia ocorrido a reunião (junto da sua cuba) das forças conjuntas cristãs e sufis. Este informa então em pormenor quais as relíquias (será por este nome que será recordado até hoje o local do encontro) que se acham nas entranhas do albergue do Corvo, protegidas durante séculos pelos enigmáticos monges negros.

Os Templários Portugueses preparam então, nesse mesmo ano, uma expedição a Sagres a fim de negociar o traslado das relíquias para território cristão já consolidado. Não estavam no entanto preparados para o que iriam encontrar...

Num relatório feito por Fr. Romão consta o seguinte:

"O albergue a que os que por ali passam chamam de mosteiro é guardado por apenas quatro monges que vestem só de negro na tradição árabe. São no entanto antigos cristãos que nunca se converteram. Falámos ao que vínhamos e pareceu nos até que estavam à nossa espera tal foi o acolhimento que deram à proposta de meter a salvo da moirama as relíquias cristãs. Indicaram nos então o local onde se encontravam guardadas fazendo nos descer por uma grossa corda a um poço fundo que se acha dentro do albergue até uma cave onde se podiam ver metidos numa parede quatro ossários de pedra com símbolos inscritos. Foi grande a nossa alegria e espanto por achar ali o que antes havíamos apenas ouvido falar tantas vezes."

Albergue do Corvo

Foram trazidas para Coimbra em total segredo e guardadas no mosteiro de Santa cruz até que mais tarde foram definitivamente depositadas em Tomar, em túmulo comum, as seguintes relíquias:

"Uma caixa de calcário com tampa da mesma pedra medindo dois palmos de altura por um e meio de largura e dois e meio de profundo contendo ossário humano completo e tendo numa das  faces menor externa a inscrição in speculum*; MARIAM com os símbolos que aqui reproduzo: uma torre sobre colina em crescente lunar invertido encimada por estrela de oito pontas."

*- in speculum, espelhado.


"Uma segunda caixa da mesma pedra e tamanho também com tampa contendo ossário humano completo tendo numa das faces menor externa a inscrição in speculum; SARA com os símbolos que aqui reproduzo: uma árvore palmeira com quatro palmas e uma serpente enrolada de cabeça coroada com sol de cinco raios."


"Uma terceira caixa igual com tampa contendo apenas um crânio humano e tendo numa das faces menor externa a inscrição abreviada; BAPTISTA HOMO EST com os símbolos que aqui reproduzo: um crânio pairando sobre as águas."


Interrompemos aqui a descrição de Fr. Romão para vos mostrar em pormenor esta inscrição cujo conteúdo dissimulado é deveras revelador. Reparemos na forma como é feita a abreviatura: BAP(tista)HOM(o)E(s)T


Se ligarmos as letras maiúsculas obtemos a palavra BAPHOMET o que nos remete directamente para o conteúdo da caixa. No entanto o que nos chamou a atenção foram as minúsculas abreviadas. Se notarem bem no BAPTISTA temos abreviados os dois 't' (o primeiro sobre o A e o segundo sobre o separador ':') que compõem a palavra e que se apresentam em forma de cruz; o primeiro propositadamente rodado (cruz em aspa ou X; primeiro 't') e o segundo na posição normal (cruz em + ou segundo 't'). Em HOMO temos o último 'o' abreviado (sobre o segundo separador ':')  e em EST o 's'. Foi assim com grande surpresa (na altura do estudo deste documento) que juntando as abreviaturas obtivemos 'xtos' ou seja Christo.

E finalmente:

"Uma quarta e última caixa de calcário de menores dimensões sem tampa e vazia tendo numa das faces menor externa a inscrição; IOANNES FILIUS MEUS com os símbolos que aqui reproduzo: um Regium in speculum sobre letra O e coroado."



Este símbolo "Regium in speculum" (que se assemelha a uma flor de Lis) aparece representado em três das quatro caixas de ossários indicando que tanto Maria (Madalena) como seus filhos Sara e João trazem consigo o sagrado Sangue Real. Dom Afonso I sabedor deste pormenor (por ser Irmão no Templo) mandou cunhar dinheiro com este símbolo.


S. Vicente é outra história. Uma história sobre a qual nada temos registado que nos confirme a autenticidade das suas relíquias. A existirem, tudo indica que ainda estejam no Cabo Sagrado.



(os desenhos aqui apresentados foram por nós copiados dos esboços originais)



Fr. João do Paço
cronista-mor

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

al-Faghar (1)



Às portas do al-Gharb


Iniciamos aqui a série de artigos que nos propusemos divulgar sobre a presença da Ordem do Templo no al-Faghar muçulmano. São dados históricos do nosso acervo que transcrevemos na íntegra, descartando deles qualquer tipo de mito religioso. E fazêmo-lo, destacando um dos protagonistas da verdadeira história de Ourique, figura incontornável, que desempenhou um papel definitivo na expansão militar portuguesa do período áureo da "reconquista" cristã : Ibn Qasi.

De seu nome Abu'l-Qâsim Ahmad Ibn Al-Husayn Ibn Qasi nasceu no termo (à época) de Silves, perto de Alvor, no sítio ainda hoje chamado Mesquita, freguesia da Mexilhoeira Grande, concelho de Portimão, segundo testemunha um fragmento de texto de Ibn al-Salâ:

"... muladi (1) Abul Qasim [...] ibn Qassi natural da gariya (2) de al-Masjid (3) arrabalde de Albur no termo de Silves nascido a 22 de Rajab de 500 (4)..."


No ano da Hégira de 531 (1137) Ibn Qasi com uma centena dos seus muridin (discípulos-guerreiros) ataca a atalaia fortificada de Muntaqût (castelo de Alferce, perto da vila de Monchique) mas fracassa e muitos dos seus guerreiros são feitos prisioneiros. Ibn Qasi foge para o Norte e refugia-se com muitos dos seus seguidores em Moçab-d'har (Thomar), perto de Santarém.


Rezam as nossas crónicas (Livros de Guerra) que em 1138 o Mestre dos Templários sediados em Soure, D. Frei Guilherme Ricardo, ao tomar conhecimento que o líder Sufi se refugiara na zona, enviou-lhe dois cavaleiros do Templo (Fr. Paio Fernandes e Fr. João Álvares) para parlamentar com ele ao abrigo da amizade que unia as duas cavalarias. Foi aqui que se selou o primeiro pacto entre o movimento Muridin de Ibn Qasi e os Templários Portugueses, que previa a colaboração militar entre ambos.

Nesse mesmo ano de 1138 Ibn Qasi regressa ao ribat de ar-Rihana (Arrifana, Aljezur) e assiste ao intensificar da pressão das autoridades Almorávidas para o capturar. No início de 1139 existem já contactos entre as duas cavalarias para colocar em acção o plano para um ataque surpresa aos Almorávidas que estavam já em armas na região para o cerco final a Ibn Qasi. Abrem-se as portas do al-Gharb muçulnamo ao projecto Templário.


Formam-se dois pequenos exércitos cristãos que se predispõem a ajudar na defesa do Mestre Sufi e seus seguidores. Um, capitaneado por Afonso Monis que se desloca por terra a coberto da cumplicidade Muridin e outro, comandado pelo Mestre dos Templários que se desloca por mar e desembarca no porto fluvial do Wadi-Mihrâb (Odemira). A estes se juntam os Muridin comandados por Ibn Qasi e ambos esperam pela chegada de Afonso Monis.

A reunião das forças conjuntas de cristãos e sufis dá-se finalmente a 18 de Julho de 1139 no lugar santo de um murâbit, local que mais tarde ficará conhecido por Relíquias (cuja história iremos desenvolver mais à frente). É, não muito longe dali, no raiar do dia 25 de Julho, no campo de Panóias, que se irá dar o confronto entre Ibn Qasi (apoiado pelas tropas cristãs) e as forças Almorávidas que, não esperando a presença dos cristãos que os atacam pela retaguarda, ficam cegas pelo sol e, desorientadas, saem completamente desbaratadas no recontro.

Como agradecimento, Ibn Qasi confirma o pacto feito com o Mestre do Templo, dispondo-se a ajudar nas futuras acções militares que os cristãos efectuem do Mondego à linha do Tejo. Tal facto pôde ser comprovado no caso da tomada de Santarém e de Lisboa, conforme já narrado por nós. Revela ainda Ibn Qasi a presença de relíquias cristãs muito antigas guardadas em segredo pelos monges negros que habitam o Cabo Sagrado (Sagres).

O entusiasmo cristão pela vitória foi tal que, na presença do Mestre Sufi e dos seus Muridin, os Templários Portugueses propõem celebrar ali mesmo, junto com o restante exército portucalense, a coroação de Afonso Monis. Para tal, realizam o velho cerimonial celta de colocar aos ombros e em pé sobre um escudo circular coberto pelos estandartes ali presentes, aquele que aclamam Rei, Afonso primeiro de Portugal. Rei-Templário, no segredo Pêro Afonso Monis, e que a História conheceu como Dom Afonso Henriques.

"Que tu irmão Templário e senhor
sobre este símbolo de união te eleves nosso Rei.
Por tu Graal!  Por tu Graal!  Por tu Graal!"


(Neste evento é armado cavaleiro pelo recém-aclamado Rei, aquele que se tornaria um dos irmãos mais carismáticos da nossa Ordem; Dom Gualdim Paes)


_______________________________________________
(1)- Descendente de cristãos convertidos ao Islão originários do Andaluz
(2)- Alcaria, vila, povoado pequeno
(3)- Mesquita
(4)- 19 de Março de 1107

Fr. João do Paço
cronista-mor

(que sucede a Fr. Manuel FB) 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Entre Tempos



Como costumamos dizer:

"Não existe tempo no caminho do Templo."

Por isso parecerá estranho a todos vós este intervalo de tempo que medeia entre as últimas publicações de Julho de 2017 e a última de Junho deste ano de 2018.

Um interregnum de um ano, portanto.

Acontece que, neste entre-tempo, temos procedido prioritariamente ao intensivo estudo, transcrição e arquivamento do material histórico já acumulado e do que nos tem chegado ultimamente vindo das nossas fontes do Norte de África (principalmente), o que nos obrigou a esta suspensão de edição no blogue dos Templários Portugueses.

Estamos agora, em melhores condições para prosseguir, retomando a prometida série de artigos sobre o Al-Faghar assim como iremos criar uma nova etiqueta a que chamaremos 'Actualização', onde serão, de facto, actualizados alguns dos artigos já publicados, mediante as novas leituras que se nos depararam ao longo deste penoso ano de silêncio.

Apresentando aqui as nossas mais humildes desculpas, rogamos a vossa compreensão, esperando que continuem connosco.

Abraço fraterno.

o irmão Principalis

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Rumo ao Paraíso




Escapo-me de ti Al-Burj (1) com a lua cheia
Deixando para trás tua forma já difusa
Durmam bem irmãs faluas... até amanhã

Vou levado na suave brisa da maré-meia
Guiado pelo chamado de minha Musa
Rumo ao cais das Fontes de Hassan

                          §

Saúdo-te ó Ar-Ra'ad (2), rio-trovão
Saúdo Burj'munt (3), tua cidadela
Suavemente adormecida à beira-rio

Simulando cansado guardião
Mas sempre atenta sentinela
Quem teu forte pulso já não sentiu?

                         §

Baixa esta noite a guarda, venho em paz
Troquei meu fiel alfanje pelo frágil alaúde
Embriagado de Lua até que chegue a manhã

Deslizando no silêncio que a hora traz
Passarei Xanar'burj (4) antes que a maré mude
Rumo ao cais das Fontes de Hassan (5)

                         §

Quero inebriar-me no teu doce perfume
Afundar-me no mar azul do teu olhar
Beber desses lábios todo o teu sorriso

Na volúpia dos teus seios acender meu lume
E no teu corpo incendiado voltar a navegar
Perdidos de amor rumo ao Paraíso

                          §

Se eu não voltar, Ar-Ra'ad
Saúda por mim as faluas de Al-Burj

al-Bideru bin al-Muni

__________________________________________________
(1) - Al-Burj, "a torre", de onde derivou Albur, a actual Alvor.
(2) - Ar-Ra'ad, hoje Arade, rio que banha Silves e tem foz em Portimão.
(3) - Burj'munt, que por má interpretação dos cruzados tomou o nome de Porcimunt, é hoje a cidade de Portimão.
(4) - Xanar'burj, a "torre de Xanar", conhecida pelos cristãos por Xanabus existiu na que é hoje Estombar (e não S. Brás de Alportel).
(5) - Fontes de Hassan serão actualmente as "fontes" de Estombar.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Tombo:LXXII


Documentos dos Templários Portugueses
guardados na Torre do Tombo

29 de Julho de 1230

Carta de Convenção entre o Bispo de Viseu e a Ordem do Templo,
outorgando este à Ordem o direito de apresentar
a Igreja de Santiago de Trancoso.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Prólogo a Al-Faghar



Pegadas no tempo
(do poeta Ibn Musa)



Descalço...
desço a calçada do castelo
e sento-me lânguidamente
nas margens da al-djazira.

Espero paciente que a maré suba
e me venha banhar os pés nus
com as pequeninas ondas
que parecem querer brincar.

Fazem-me lembrar a infância
quando chapinhava nas ondas
das praias da minha aldeia natal...
Saudosa Temara!

Agora finjo que as crianças
agitam esse outro lado do mar
chegando aqui em pequenas ondas
o eco longínquo desse doce brincar.


[...]

...enquanto a maré sobe lenta
vou sentindo o vibrar do chão
à passagem dos velozes cavaleiros
do ribat de meu senhor Ibn Qasi.
Ibn Musa
1086-1168
Aljezur

sábado, 15 de julho de 2017

Os Templários no Algarve árabe


Nova série de testemunhos sobre Al-Faghar (Algarve)

 Na sequência dos recentes e lamentáveis acontecimentos ocorridos em Tomar, os quais reflectem o profundo e continuado desrespeito pela memória da Ordem do Templo - que quase nos levaram ao encerramento deste blogue em sinal de protesto - ficou decidido rumarmos a Sul onde os Templários Portugueses tiveram uma prematura e discreta presença, pontuada depois por algumas participações militares até à definitiva conquista do reino do Algarve.
Proximamente, iremos dar a conhecer numa série de publicações, nove episódios ainda inéditos, dos muitos que constam dos Livros de Guerra da Ordem portuguesa.



- Onde eram recebidas e por quem, às portas do Algarve ainda muçulmano, as delegações portuguesas da Ordem do Templo enviadas em segredo por El-Rei D. Afonso I?

- Como entregou El-Rei D. Afonso I pessoalmente e em completo sigilo na praça fortificada de Al-Burj o simbólico e enigmático presente de cavalaria ao seu aliado Ibn-Qasi e no que consistia?

- Que motivos estiveram realmente por detrás da ida ao Promontorium Sacrum para a recolha das relíquias de S. Vicente? Onde ficava o Mosteiro do Corvo e quem eram os monges que o habitavam? O que levaram realmente para Lisboa?

- Que tesouro resultante da pilhagem da primeira tomada da cidade árabe de Silves se perdeu misteriosamente a caminho do Norte da Europa levado por um protegido do flamengo bispo Nicolau?

- Que testemunho sobreviveu até hoje das cerimónias religioso-militares feitas pelos Templários Portugueses em terras mouras algarvias antes da tomada de Silves?

- Onde pára a Cruz de Portugal oferecida por S. Bernardo de Claraval aos Templários Portugueses, levada por estes e perdida na primeira tomada de Silves?

- Onde ficava o hospital de campanha dos monges-soldados Templários feridos na tomada de Silves e o seu cemitério?

- Como ajudaram os Templários Portugueses os habitantes de Silves a refugiarem-se em Monchique salvando todos os seus pertences de mais valor que nunca foram resgatados? 

- Que testemunho arquitectónico dedicado a Santa Maria Madalena deixaram os Templários Portugueses no Algarve ainda não conquistado?

terça-feira, 4 de julho de 2017

Tombo:LXXI


Documentos dos Templários Portugueses
guardados na Torre do Tombo


Maio de 1228

Carta de doação feita por Dona Fruilia Ermigia à Ordem do Templo da herdade de Cira com todos os seus termos e de toda a sua fazenda em Portugal e Castela.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Outra vez?


Claustro da Hospedaria do Convento de Cristo

Acaba de ser tornado público mais um grave atentado ao património Templário em Tomar.
Foi grave, muito grave o que se passou.
Esperamos que os responsáveis por mais este acto de selvajaria "cultural" sejam identificados e punidos exemplarmente.



42 bilhas de gás estiveram aqui armazenadas e foram utilizadas na alimentação da fogueira. Teria bastado o rebentamento de uma delas para que grande parte do convento e a Charola Templária tivessem sido reduzidos as escombros.









A profanação e vandalização de um lugar sagrado com um ritual satânico (não temos outra forma de o definir) de imolação pelo fogo da imagem Templária de Santa Maria (assuma Ela a forma que assumir) numa enorme fogueira alimentada por mais de quarenta botijas de gás propano industrial no centro do claustro, árvores cortadas floreiras arrancadas, pedras partidas, piso danificado, ...configuram um acto criminoso que não esqueceremos.






Não voltaremos a dizer que o convento de Cristo é património mundial classificado pela Unesco porque nem a Unesco nem o mundo quer saber dos atentados ao nosso património. Diríamos mais: nem os portugueses querem já saber da memória que lhes deixámos, tendo em conta o silêncio cúmplice da maioria dos que se dizem Templários. Sabe-se que muitos participaram como figurantes desta farsa. E tudo por ânsia de protagonismo e por dinheiro. O vil dinheiro que a todos corrompe.

Cada vez nos sentimos mais isolados. Mais esquecidos.
Os traidores demonstraram mais uma vez saber ser os amigos dos inimigos do nosso legado. Sendo assim, nossos inimigos são.
Que não mais evoquem o nome do Templo os que em nome dele tiram proveito enquanto nada fazem para o proteger, tudo fazendo para o destruir.

Será, Mestre, que teremos de voltar a executar a maldição das tuas últimas palavras? Outra vez?

terça-feira, 30 de maio de 2017

Tombo:LXX


Documentos dos Templários Portugueses
guardados na Torre do Tombo


Fevereiro de 1227

Carta de composição feita entre a Ordem do Templo
e o Arcebispo de Braga, de modo a este ter apenas uma procuração
das igrejas de Mogadouro e Penarroia e receber menos dízimos,
apresentando a dita Ordem os Capelães.

domingo, 14 de maio de 2017

Pontes caídas




Pobre pomba branca
que te mantêm no escuro
envolta em manto tão negro

deixando-te em grilhões presa
por detrás de grades púrpura
que encerram teu degredo


Presa mas não esquecida
que eu o corvo mais velho
fiel sombra e leal amigo

usando o tempo farei questão
de partir as grades que te retêm
para te libertar e levar comigo


Levar-te para longe da mentira
dos que dizem hoje com falsidade
serem os que vestem tuas alvas penas

tentando na vã futilidade da vida
tornar grandes as minguadas almas
soprando tal vida em vidas tão pequenas


Tu, a ponte de entre todas a eleita
podias em teus feitos ter escrito hoje
que do negro manto a alva pomba soltaste

mas deixaste somente palavras ao vento
que no seu esquecimento já o vento leva
deixando apenas na memória a justiça que negaste

Fr. Salvador
1965, Dezembro



"...a Igreja Católica deverá ser 'missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor' "

Esqueceste o 'justa' e 'libertadora'.

Que Santa Maria te perdoe, proteja e continue a guiar, Irmão Jorge.

Irmão Principalis
+++ Maio, 2017

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Tombo:LXIX


Documentos dos Templários Portugueses
guardados na Torre do Tombo


21 de Janeiro de 1227

Carta de doação feita por Dom Soeiro Rodrigues à Ordem do Templo,
da terça parte de todos os seus bens.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Olivença e Fr. Pantaleão



Conforme prometido anteriormente, vamos hoje falar um pouco da
mui nobre e sempre Portuguesa Terra de Olivença.
E decidimos fazê-lo seguindo as memórias de Fr. Pantaleão, guiando-nos pela sua pena.

Nascido em 1212 em Besièrs, na região costeira da Occitânia (hoje sul de França), veio em 1222 com a família - refugiada da tristemente conhecida cruzada cristã contra os cátaros - para o reino de Portugal onde se estabeleceu com os pais na comunidade de Montalvão, na região Templária da Açafa.
Em 1229 é recebido na Ordem do Templo e nesse mesmo ano é promovido a sargento-capelão.
Integrando a falange Templária Portuguesa, participa em 1230 na conquista de Badajoz aos mouros.
Em reconhecimento, Afonso IX de Leão faz doação de alguns lugares à Ordem do Templo entre eles o de Alconchel onde Fr. Pantaleão é colocado. Nesse mesmo ano de 1230, no dia de S. Jorge e com apenas 18 anos, é investido e armado Cavaleiro Português da Ordem do Templo.

Fr. Pantaleão é referido nos velhos registos como sendo "...um homem afável e bondoso e de mui bom trato que cativou a admiração e o carinho das gentes de Alconchel."
Talvez por isso tenha sido o primeiro a receber a notícia, quase a segredo, do achamento de uma imagem muito antiga num lugar perto e a Norte dali, representando Maria grávida, oculta sob as raízes de uma velha oliveira.
Relata-nos ele: "... reconheci-a de pronto como a Senhora das Esperanças a que o povo dava antigamente o nome do Ó e que havia desaparecido no tempo da última invasão moura destas terras. Estava debaixo de uma velha e carcomida oliveira envolta num burel já apodrecido e cheia de lodo. Lavei-a na fonte que está ao lado e de pronto o povo começou a falar de milagre. Logo ali lhe ergueram uma pequena ermida a que deram o nome de Nossa Senhora da Esperança, e porque o linguarejar popular tem destas coisas o lugar se ficou conhecendo por Olivança; que vem da mistura da oliveira com a esperança."

Dentre em pouco, a Ordem manda ali construir umas casas anexas à ermida para seis freires do Templo tendo como companheiro e guia espiritual Fr. Pantaleão. Pouco depois, uma guarnição Templária é destacada de Alconchel e colocada na então já denominada Olivança. Esta seria o embrião da futura Comenda Templária que a Ordem iria "prover de forte castelo e seu fossado".


Voltamos a ter notícia de Fr. Pantaleão muitos anos depois já pela pena de um dos seus discípulos numa memória das casas da Ordem nas várzeas do Liz (Carvoeira-Mafra), habitando numa ermida por ele mandada construir, situada perto da foz do rio Lizandro. Lê-se nesse registo: "...Mestre Pantaleão trouxe consigo dos lados de a'Safra a imagem antiga da Senhora do Ó e aqui a consagrou. Dizia em vida que por nostalgia da sua terra natal haveria de morrer junto do mar que amava e acompanhado de Maria que do mar também tinha vindo e do mar havia saudade [...] acabou aqui seus dias com a notável idade de 68 anos. Casas do Liz da venerável Ordem do Templo em Portugal, ano do Senhor de 1280."

Um outro registo diz-nos que devido à suspensão da Ordem e à desactivação das casas do Templo neste lugar, foi necessário esconder novamente a imagem da Senhora do Ó numa pequena gruta situada por cima da ermida e que ali esteve durante bastante tempo oculta. Diz-nos essa outra memória que: "... por lapso dos Irmãos amanuenses onde estava escrito: guardada na Lapa da S.ra [lapa da Senhora] leram Lapa da Serra e assim tomou o nome o lugar que fica acima da gruta..."

É dado assente que a imagem da Senhora do Ó (hoje sob custódia dos Templários Portugueses) traz consigo associadas a memória do nosso querido Irmão Fr. Pantaleão e a criação de pelo menos três topónimos Templários: a sempre portuguesa cidade de Olivença, o sítio da Senhora do Ó e a aldeia da Lapa da Serra.
Testemunhos de quão fascinantes, embora atribuladas, podem ser as encruzilhadas da História.

Fr. Manuel F.B.


Cronista-mór da Ordem
dos Cavaleiros Templários Portugueses
(com votos de um bom ano)