sábado, 21 de setembro de 2019

Tombo:LXXIII


Documentos dos Templários Portugueses
guardados na Torre do Tombo


Dezembro de 1230

Carta de doação da Torre de Alfarofe
feita por Martim Mendes e sua mulher D. Domingas
à Ordem do Templo

"Saibam todos os presentes e por vir que eu Martim Mendes, juntamente com minha mulher Dona Domingas, damos e concedemos aos freires do Templo a torre de Alfarofe, com os seus termos, assim como nós os temos confirmados por carta do concelho de Elvas. No dia de Santo Estêvão, no mês de dezembro. E quem vier contra este fato seja maldito de Deus. Amén. E pague 300 maravedis aos sobreditos freires do Templo. E isto foi feito estando presentes o alcaide D. Martins, Gil Rodrigues, João Martins, irmão do alcaide, Domingos Tavira, Paio Martins, parente de Gil Rodrigues, Mem Coelho, Estêvão, carpinteiro, Gonçalo Pais, besteiro, Martim Garcia, homem da alcaidaria. João Martins."

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

al-Faghar (9)


Santa Maria de Aqua-Lupus

Ermida de "Guadalupe"
(Raposeira, Vila do Bispo)

Neste nono e último artigo da série al-Faghar vamos falar daquele que tem sido o mais desconhecido e mal interpretado templo religioso do barlavento Algarvio; a antiga ermida de Nossa Senhora de Guadalupe.

De época anterior à sua construção temos uma referência documental que nos diz:

"No caminho peregrino que conduz ao Cabo Sagrado há no termo de Lagos uma fonte na ribeira de Lupe que tomou o seu nome de uma pedra com forma de cabeça de lobo de onde jorra copiosamente uma água claríssima e muito fresca onde os peregrinos se costumam saciar e fazer as ablações afirmando que a dita tem dons de cura."

Da mesma época, um outro documento revela-nos:

"...na fonte do Lobo a poente do termo de Lagos há duas pedras muito antigas em cujas inscrições se lê AQUA em uma e na outra LUPUS : as quais se crê terem dado o nome ao lugar."

Parece-nos ser esta a origem etimológica da actual "Guadalupe" que, da romana AQUA LUPUS, teria evoluído para Wadi-Lupe (vale ou ribeira de Lupe) no tempo dos árabes. Não sabemos quando nem porquê foi feita a ligação à lenda de Guadalupe mas suspeitamos que a semelhança entre os nomes teria dado origem a este erro. Ou haverá mesmo um elo oculto, uma vez que o culto a Guadalupe já vem da época visigoda?

Sabemos, isso sim, por constar dos nossos arquivos, que em 1315 se estabeleceram no local alguns irmãos Templários franceses* que ali edificaram "às suas custas" a ermida dedicada a Santa Maria Madalena e o pequeno albergue contíguo, de apoio aos peregrinos, junto à "milagrosa" Fonte de Lupe.

(*- Estes Cavaleiros franceses  haviam sido acolhidos pelos Templários Portugueses aquando da suspensão da Ordem em 1309 e na sequência das perseguições movidas por Filipe IV e Clemente V, refugiando-se uns nas ilhas (ver "Navegações (IV) - A frota de La Rochelle") e outros em alguns pontos no reino do Algarve. Assim que foram transferidos para Castro Marim, a ermida deixou de ser consagrada a Maria Magdalena.)

Entre outras referências mais tardias, Gomes Eanes de Zurara diz na sua "Crónica dos Feitos da Guiné" em meados do século XV:

"Dos outros Mouros que filharam en Tider, envyarom Lançarote e os outros capitães, [...] e a Santa Marya de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”


Templários com a típica cota de malha num capitel da ermida.

Em 1317 fizeram-se na ermida os primeiros enterramentos de Cavaleiros Templários 'em túmulo com tampa de pedra lavrada' como consta dos nossos arquivos e em 1319 já o piso interior se achava lotado, pelo que se registaram alguns sepultamentos no exterior.

Com a atribuição de Castro Marim para Sede da Ordem de Cristo, estes irmãos Cavaleiros foram para aí transferidos, tendo a ermida de Santa Maria de Lupe ficado à guarda de alguns monges que lhe fizeram a primeira reforma. Foi nesta altura que o bispo de Silves mandou retirar todas as lápides do interior da ermida, fazendo-as transportar para Lagos**, assim como muitas outras pedras que identificavam a Ordem do Templo, tendo ficado apenas algumas, entre elas as do fecho das abóbadas.

(**- Esses testemunhos jazem hoje sob os destroços de uma casa senhorial arrasada pelo terramoto e sepultada pelo maremoto de 1755)

Pedra de fecho de abóbada com figuração esotérica
Templária, onde se pode "ler" simbologia referente à
transmissão oral da tradição histórica e da linhagem de
Maria Madalena.

Como curiosidade retirada do nosso arquivo e relacionada com estes cavaleiros franceses, acrescentamos o facto de ter sido um dos monges de Santa Maria de Lupe (descendente de Ludovico IV e de sua mulher Elisabeth de Bratislava) quem mandou construir a primitiva igreja de Santa Elisabete na Boca do Rio, Budens, não muito longe de Guadalupe.
Ruínas da igreja de Santa Elisabete situada na Boca do Rio, Budens,
implantada na área arqueológica da cidade Luso-romana, cuja curiosa
referência na nossa documentação, lhe atribui o nome de Tessa-Nabal.
(Tessa, Tensa ou Tersa; a terceira letra não é legível no original)


Fr. João do Paço
Cronista-Mor

sexta-feira, 19 de julho de 2019

al-Faghar (8)


O al-Faris Templário




Ainda as forças cristãs lutavam nos últimos redutos da cidade de Silves e já El-Rei D. Sancho I tomava medidas para salvaguardar os habitantes muçulmanos que quisessem sair do inferno em que se tinha tornado nas últimas horas aquela presa de guerra, ainda nas garras dos cruzados nórdicos, permitindo a alguns cavaleiros portugueses que levassem  em segurança pessoas e bens para terras vizinhas.


"Coube a Martim Roque, cavaleiro da ordem do Templo, escoltar o pequeno grupo de Raissa, a filha de um rico comerciante, que tinha conseguido reunir o tesouro da família escondendo-o numa das mulas de transporte. Andando em cuidados por vales e montes chegaram à margem esquerda do rio Wad'luqta (1) que atravessaram a vau, a montante do castelo de Munt'aqût (2), para onde seguiam, quando foram avisados de que ainda havia alguns soldados cruzados a pilhar e a destruir o reduto muçulmano. De pronto o cavaleiro tomou medidas para proteger as gentes que seguiam sob sua escolta que tiveram de se esconder numa furna da serra enquanto ele e os seus companheiros de armas que eram dois sargentos de que não sabemos os nomes e um soldado muçulmano se acercaram do castelo para fazer frente aos saqueadores. Deu-se imediata escaramuça de que resultou a debandada dos nórdicos, não sem estes terem atingido gravemente Martim Roque pelas costas com um virote de besta que lhe causou a morte com grande agonia."

Relatos posteriores dão conta que estes refugiados mouros se teriam estabelecido não muito longe do castelo destruído e entretanto abandonado, num local a que teriam dado o nome de al-Faris, (o cavaleiro) em homenagem ao martírio do guerreiro Templário.

Lugar que é hoje a bonita aldeia do Alferce.

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(1) - Wad'luqta (Vale do abandonado?) é actualmente a ribeira de Odelouca. Na época da narrativa, era um rio navegável até ao sopé do monte onde estava implantado o castelo de Montagud. Foi por ali que os cruzados nórdicos subiram e desembarcaram para atacar de surpresa o castelo/atalaia mourisco, nas vésperas do cerco de Silves.

(2) - Munt'aqût (o Montagud descrito pelo cruzado anónimo que acompanhou o cerco e a tomada de Silves) fica onde está hoje o "castro" do Alferce, na serra de Monchique. Limpa toda a vegetação pela autarquia de Monchique e estudada toda a área do "castro" pelo jovem arqueólogo Fábio Capela, os vestígios postos a descoberto vieram a revelar estruturas do castelo, algumas visíveis e outras ainda subterradas, mas perceptíveis pelas elevações no terreno. 

Planta do alcácer do castelo de Montagud


Lendas relacionadas

Nos ditos relatos vem uma lenda que fala de um tesouro trazido nesta ocasião por uma moura fugida de Silves e que estaria escondido numa gruta da serra de Monchique. Tesouro esse, ainda não encontrado.

Também dessa altura, encontramos hoje na Serra de Monchique, uma outra lenda de um lugar perto, a que chamam Poço da Serra e que aqui transcrevemos, com a devida vénia aos autores.

Lenda do poço da serra

"Em tempos que já lá vão, havia uma moura lindíssima que dançava no Palácio das Varandas, na cidade árabe de Silves. Seu pai, um mestre sufi, fizera-a jurar que, dele guardaria o Espírito quando chegasse a hora de entregar a alma a Allah.

Um dia, Silves viu-se cercada pelos cruzados e a bela moura foi forçada a fugir e esconder-se na Serra de Monchique, até que o cerco acabasse. Mas a cidade caiu e nas suas muralhas destruídas, caiu ferido de morte o mestre sufi. Um cavaleiro cristão encontrou-o moribundo. Sabendo da jura, promete-lhe procurar a filha.

Vagueando pela serra, a bela moura aqui veio ter. Esperou, desesperou e em lágrimas se esvaiu.
O cavaleiro cansado de a procurar, veio ao poço matar a sede. Foi quando vindo da água, uma voz se ouviu:

- Trouxeste-me o Espírito do meu amado mestre. Como te agradecer?
- Dança para mim, graciosa moura.
-Dançaremos sempre para ti, Cavaleiro...

Desses tempos, apenas sobrevive o velho poço. 
...Será?

Diz-se que nesta casa, em noites de animação e magia, a moura aparece disfarçada e dança, cheia de graça, para o seu cavaleiro.

Aqui, no Poço da Serra..."

Lenda curiosa, que transpira no diálogo, essências de sufismo e templarismo, numa mistura de passado e presente.

Que, encantadas, as belas mouras dancem sempre para os cavaleiros de todos os Templos...



Fr. João do Paço
Cronista-Mor

terça-feira, 30 de abril de 2019

al-Faghar (7)


Estombar - "estes, que tombaram"

Estombar, vila ribeirinha situada na margem esquerda do Arade, a montante de Portimão, deve o seu topónimo "cristão" ao hospital de campanha ali instalado pelos Templários na sequência dos ataques que levaram à primeira tomada da cidade árabe de Silves em 1189. Era, à época, banhada por um braço de rio e servida por um ancoradouro que podia receber, na maré alta, embarcações de médio porte. Nesse lugar, no início da dita campanha, acostaram os cavaleiros do Templo que ali se acantonaram após terem tomado a atalaia fortificada.

Estombar - Localização da torre/atalaia e do cemitério, hoje desaparecidos

Durante e após a tomada da praça de guerra de Silves, a Estombar foram chegando os Templários feridos para serem tratados, sendo os mortos sepultados no "campo" da pequena mesquita (que existia onde é hoje a Igreja matriz), conforme rezam os Livros de Guerra do Templo:

"Estes, que tombaram na tomada da cidade (de Silves), aqui jazem, Irmãos nas batalhas da vida, Irmãos no eterno descanso. Que a terra consagrada de Xanabur lhes seja leve."

Uma das estelas funerárias que testemunham
a presença Templária em Estombar, Algarve

Xanaburj ou Torre de Xanar, era também designada por Xanabus ou "castelo" de Assan Abu, conforme vem nas descrições da época. São ainda mencionadas as "Fontes de Assan" (hoje Fontes de Estombar), em Xanar'burj, no poema adaptado de Al-Bideru Bin Al-Muni, "Rumo ao Paraíso", já aqui publicado por nós.

Estombar, a antiga "Xanabus" mourisca, ficou na História Militar da Ordem do Templo como o lugar santo que, em todo o actual Algarve, mais túmulos de Irmãos nossos acolheu, só ultrapassado, quase dois séculos depois e em tempo da Ordem de Cristo, pelo de Castro Marim.

Fr. João do Paço
Cronista-Mor

segunda-feira, 22 de abril de 2019

al-Faghar (6)


A primeira "Cruz de Portugal"

(esboço feito a partir do original)


Oferecida, em 1153, por S. Bernardo de Claraval, pouco antes de este falecer (e por sugestão do seu querido Irmão Suger), aos monges "brancos" de Cister da primitiva Santa Maria de Alcobaça,  e ainda antes de estes receberem a doação oficial do couto por parte de D. Afonso I, a Cruz de Portugal seria um importante símbolo da protecção divina do recém criado Reino de Portugal.

Carta de Doação do couto de Alcobaça aos monges de Cister

Entregue a sua custódia ao Mestre Fr. Hugo Martim que a levou e depositou na igreja de Santa Maria da Alcáçova, em Santarém, na altura Sede da Ordem do Templo em Portugal, ali se manteve até ser mudada para Tomar para ser colocada no Terreiro de Santiago do castelo Templário de Santa Maria de Sião, onde esteve até às vésperas da partida para a primeira tomada de Silves.

Retirada da sua base octogonal, foi levada com a esquadra Templária até terras do Algarve onde aguardou, na foz do Arade, que Silves fosse tomada pelos cristãos. Esteve depositada na convertida mesquita da cidade até à retoma desta por parte dos árabes dois anos depois, quando desapareceu. Pensou-se sempre que tinha sido destruída nessa altura, pois nunca mais se soube do seu paradeiro.

Sabemos agora que foi recolhida durante os ataques e escondida nos subterrâneos do castelo. Para o seu recente resgate contribuíram bastante os indícios históricos que nos foram deixados, um pouco dispersos, e que, do "cerrado dos cães" do castelo de Tomar nos levaram à "cisterna dos cães" do castelo de Silves. Afinal não eram "cães", eram "leões".

Talvez esta primitiva Cruz de Portugal tenha justificado a demora nas nossas publicações. Tendo-lhe apanhado o rasto, só parámos quando a encontrámos. Recuperada, tratada e devidamente catalogada, é o mais recente item que enriquece hoje o já vasto espólio histórico da Ordem dos Cavaleiros Templários Portugueses.

O que é do Templo, ao Templo regressa.

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Obs.
- O nosso profundo agradecimento ao Sr. J. Cercas por nos ter facilitado o acesso a partir do seu quintal e nos ter indicado, no túnel, a pedra com a marca dos "leõezinhos".
- A divulgação de relíquias sagradas da Ordem serão, por diversas razões (não só de segurança mas da própria sacralidade das mesmas), sempre aqui representadas por esboços feitos a partir dos originais.

Fr. João do Paço
Cronista-Mor

domingo, 6 de janeiro de 2019

al-Faghar (5)



Maldição Sibilina



"16 de Julho de 1189. Domingo. Reunimos todos os barcos na pequena enseada e desembarcámos na minúscula praia a coberto do imenso canavial. Ainda não nascera o sol e já nos preparávamos para a cerimónia dominical onde seríamos abençoados pelo irmão capelão Bernardo Viegas e pelo comandante de esquadra o cavaleiro João de Ourém. Assim que os primeiros raios de sol despontaram, todos os irmãos do Templo colocaram o joelho no chão em sinal de reverência e oraram a Santa Maria, juntos, ao lado do poço do arco e em redor do marco de pedra que havia sido esculpido horas antes e que, enterrado naquele chão sagrado, simbolizava aquela reunião espiritual. Aquela terra já havia sido nossa antes, num passado distante..."



A pequena enseada onde fundearam as naus Templárias, a poente da foz do Arade

O marco de pedra com o símbolo do Templo que havia ficado no cimo daquela pequena falésia, conhecida hoje como ponta de João d'Arenz (corruptela de Ourém), resistiu ao passar do tempo como testemunho da nossa presença em terras do al-Garb ainda muçulmano. Testemunho mudo do grupo de monges-guerreiros em recolhimento, comungando fraternalmente da bênção missal, recebendo do comandante com entusiasmo as palavras de incentivo para a missão militar que se aproximava; a primeira tomada de Silves. Alguns não voltariam...

O local onde se realizou a cerimónia. Ao lado, tapado pela vegetação, o "poço do arco".

Este testemunho Templário esteve mais de oitocentos anos naquela ponta da falésia, até que alguém o levou recentemente. E esteve sempre lá por uma razão... Silves esteve apenas dois anos nas mãos dos cristãos. Foi reconquistada em 1191 pelas forças do califa Abu Iuçufe Iacube Almançor e todos os vestígios da presença cristã foram apagados. Bem, quase todos.

Ao tomar conhecimento da presença do marco Templário o novo alcaide de Silves mandou parti-lo e deitá-lo ao mar mas a Sibila (enigmática personagem que se havia refugiado na serra de Monchique e voltado à cidade agora retomada), intercedeu e propôs poupar tal testemunho. Dizem as crónicas árabes que...

agora desaparecido marco Templário, com a cruz encimada pelo C "aspado"

"A Sibila de Silves ter-se-ia oposto à sua destruição. Teria optado antes por lhe lançar uma terrível maldição que perduraria por séculos. Segundo as suas palavras, essa maldição cairia sobre os cristãos que tentassem recuperar essa pedra. Nenhum muçulmano lhe tocaria."

Não somos de acreditar piamente nessas coisas de maldições mas, pelo sim pelo não, nunca reclamámos tal pertence...

Fr. João do Paço
Cronista-Mor

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

al-Faghar (4)



A Flor de Damasco




" Na lua de Sâfar um poder chegou a mim
que não me foi nem doce nem amargo..."

Dizia Ibn Qasi nos finais de Agosto de 1151 contemplando-a pela última vez no Salão dos Poetas do Palácio Xarajibe (1) pressentindo já punição vingativa por parte dos seus inimigos. Pouco depois era assassinado à traição por partidários dos integristas almôadas na alcáçova do seu palácio em Silves. No mês de Jumâda, tal como o Mestre sufi havia profetizado:

" ...em Jumâda por fim terminará
o tempo que a loucura apagará."


Com a morte de Ibn Qasi foi interrompida a presença da Ordem dos Cavaleiros Templários Portugueses em terras do Garb al-Andaluz. Foram precisos mais 38 anos para que regressássemos a estas paragens, não como aliados mas como conquistadores. Em 1189, já no reinado de D. Sancho I, Silves foi tomada em condições semelhantes à de Lisboa.

"Vindas do norte da Europa (da foz do rio Escalda) começam a concentrar-se em Lisboa as naus dos cruzados que iriam formar a frota cujo destino era, uma vez mais, a terra santa. O rei D. Sancho I aproveitando esta força militar em trânsito, propõe a sua colaboração no ataque à cidade de Silves. Antecipando-se, 55 naus nórdicas zarpam à socapa uma semana antes e vão atacar Alvor de surpresa provocando um autêntico massacre na cidade, matando perto de 5.000 pessoas não perdoando a sexo nem idade. Os poucos habitantes que conseguem sobreviver refugiam-se em Silves que prepara a suas defesas. No entanto, a força naval dos cruzados parte para o Oriente saciada de sangue e nutrida do saque. Silves relaxa e baixa a guarda pensando que o pior já passara. Mas o pior ainda estava para vir..."

Depois da saída de Lisboa, a nova frota composta agora de 37 naus grandes e muitas outras perfazendo mais de uma centena, passou frente às ruínas ainda fumegantes de Alvor e estacionou na foz do rio Arade. No dia 21 de Julho de 1189 iniciaram os primeiros ataques às ameias do castelo de Silves. A 29 de Julho já se encontravam concentrados no local os efectivos portugueses constituindo um significativo reforço militar terrestre. O exército do Rei ajudado pelas alas das Ordens Militares de Santiago, Templo, Avis e Hospital lançaram-se às muralhas viradas a norte. A sul os cruzados redobraram os ataques. Para os mouros sitiados, abriram-se as portas do inferno...

"No domingo, dia de S. Felicíssimo e Agapito (6 de Agosto) nós os Teutónicos logo de madrugada assentámos as máquinas de assalto e uma, a que chamamos ouriço, contra o muro da Coiraça, entre duas torres, com o intento de lhe abrir brecha..."

Assalto às muralhas de Silves

Perante as constantes e violentas vagas de assalto às suas muralhas, Silves capitulou nos primeiros dias de Setembro de 1189 exausta, faminta, doente, "...bradando do muro pela gente d'El Rei para tratar de entregar a cidade."  A partir daqui começaram as negociações que terão sido mais difíceis entre D. Sancho e os cruzados do que com os próprios muçulmanos. O monarca português propôs que os habitantes pudessem sair da fortaleza com os seus haveres. Chegou mesmo a prometer aos nórdicos 10.000 cruzados em ouro que estes recusaram. Queriam pilhar a cidade. Ficou então assente que os infiéis sairiam da fortaleza "...somente com o que tivessem vestido, ficando El-Rei com a cidade e nós (cruzados) com o despojo que tivesse dentro."  No entanto, o comportamento desta força mista de cristãos cruzados e outros, conforme o registo de um cruzado anónimo, foi deplorável. "...a nossa gente miúda, porém, descarada e vergonhosamente começou a roubá-los como quebra de convenção e a maltratá-los com pancadas, do que El-Rei de Portugal se agastou muito."  Perante esta atitude D. Sancho acabou por decidir  não entregar a cidade para saque apesar dos protestos dos cruzados. "...entregámos-lhe a cidade ainda recheada de riquezas, para que fizesse a partilha connosco, como cumpria a Magestade Real, havendo respeito assim ao trabalho, como ao dano que havíamos sofrido. El Rei, porém, tomando tudo para si, nada nos deixou, e por isso os cruzados, tratados tão injuriosamente, se separaram dele menos amigos do que dantes estavam."

Ficaram assim preservados muitos dos tesouros existentes na cidade, principalmente os do famoso Palácio das Varandas. E é aqui que começa a rocambolesca história da nossa Flor de Damasco, descrita como a Musa Inspiradora dos poetas árabes de Silves.

"Nenhum de nós ficava indiferente à sua beleza inspiradora, à forma feminina de tamanho natural que se adivinhava nos contornos daquela árvore de ouro puro, ofertada em bruto pela natureza tal qual a retiraram da terra mãe e depois cravejada de pedras preciosas pela mão do artista que a vestira. Era um tesouro digno do Paraíso, e que quase ofuscava o olhar indigno dos poetas..."

Como teria sido a mesquita de Silves

Purificada a mesquita e transformada esta em templo cristão, nomearam D. Nicolau (um clérigo flamengo) Bispo de Silves. Amigo da opulência, tratou logo de reclamar para si muitos dos objectos valiosos do Palácio das Varandas entre eles a Flor de Damasco ou Rosa de Damasco como passaram a chamar-lhe. D. Nicolau tinha um sobrinho, Theobaldo, que decidira não acompanhar a frota dos cruzados e voltar para as terras do Norte. Aproveitando a oportunidade, o bispo pediu ao sobrinho que, junto com os haveres deste, transportasse também umas relíquias mouriscas para si. E foi assim que a Flor de Damasco embarcou discretamente desaparecendo para sempre. Não chegou a terras flamengas. Por alturas de Peniche e antes de cruzar as Berlengas, duas naus vindas do castelo da Touria (2) atravessaram-se no caminho de Theobaldo, tendo-o aliviado gentilmente do peso de tais haveres.

viva Abú Bakr!
saúda por mim, asinha,
os queridos lugares de Silves
e diz-me se a saudade deles
é tão grande quanto a minha.

saúda o Palácio dos Balcões,
da parte de quem não esqueceu
a morada de gazelas e leões,
salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava
entre ancas que lá achava
e bem estreitas cinturas...

Al-Mu'tamid

"Rosa, Flor,
de Damasco já esquecida,
na Flor da Rosa... adormecida"

________________________________________
(1) - O célebre Palácio das Varandas do Castelo de Silves, com a sua monumental escadaria ladeada por leões de porcelana dourada. Situava-se na medina, a poente do alcácer e contíguo à sua muralha, nada tendo a ver com as dependências achadas recentemente junto à muralha oriental.
(2) - Castelo Templário da Atouguia da Baleia.


Fr. João do Paço
cronista-mor

terça-feira, 30 de outubro de 2018

al-Faghar (3)



A oferta de Afonso I




Ibn Qasi prometeu e cumpriu. Os seus muridin participaram na tomada de Santarém aniquilando a guarda no interior das muralhas e franqueando as portas da fortaleza às tropas cristãs. Santarém caiu com o mínimo de sangue derramado. Seguiu-se Lisboa onde a situação foi bem mais complicada devido à interferência dos cruzados que, vindos do norte da Europa em trânsito para a terra santa, contra a vontade das tropas portuguesas, se impuseram no cerco, roubaram, violaram e mataram indiscriminadamente após a tomada da baixa da cidade. Os guerreiros do Mestre sufi, embora em pequeno número, cumpriram a sua missão no sector oriental, nas muralhas do alcácer. E Lisboa caiu também na posse de Afonso I de Portugal.

Na sequência destas victórias e logo após a tomada pacífica de Sintra e da entrega das restantes fortalezas árabes ao longo da linha do Tejo, delegações Templárias foram enviadas a Évora, a al-Batun (Viana do Alentejo) e a wadi-Mihrab (Odemira) para agradecer a participação muridin e prestar contas do sucedido em Lisboa. Ibn Qasi compreendeu e aceitou as explicações reafirmando a sua vontade de continuar a cumprir o pacto secreto com Afonso I. Propôs até aos cavaleiros do Templo que estabelecessem discretamente um posto avançado em al-Batun sob sua protecção se assim o desejassem. Os Irmãos aceitaram, criando ali uma pequena "Comenda" secreta em pleno coração do Alentejo muçulmano. Ibn Qasi também convidou Afonso I a encontrar-se pessoalmente com ele em local à escolha do monarca português. Em território cristão inclusive, se assim o entendesse.

Afonso I de Portugal tinha uma personalidade invulgar. Era nobre, bravo, estratega inteligente e muito temerário. Arrojado até, como se mostra na seguinte narrativa...

"Dom Afonso agradado com Ibn Qassi mandou-nos preparar para oferta um cavalo branco puro lusitano um escudo e uma lança um peitilho heráldico e um anel com os símbolos místicos comuns à cavalaria espiritual para selar em definitivo o pacto entre ambos. Albur foi o lugar combinado para o encontro. Éramos ao todo sete cavaleiros encarregues de entregar pessoalmente a oferta simbólica ao Mestre Sufi. Tendo recebido deste o prometido salvo-conduto para circularmos em paz por todo o território sob o seu domínio, partimos para terras do sul..."

 Vestígios do Alcácer do castelo de Alvor

A delegação era composta por quatro cavaleiros Templários e três cavaleiros do rei. Todos viajaram sob escolta muridin até que se apresentaram discretamente ao alcaide de Alvor que os conduziu à presença de Ibn Qasi. Este, que já os esperava, recebeu-os com todas as honras no alcácer da cidade (1). Mas continuemos a narrativa...

"...à chegada desembarcámos num pequeno ancoradouro de pedra (2) onde nos esperava o Alcaide em pessoa acompanhado de alguns nobres locais e uma pequena escolta. Trazendo o cavalo e as oferendas fomos conduzidos por um passadiço de madeira que percorria todo o fosso junto da muralha norte (3) até às portas do nascente (4) . Por três dias e três noites ali ficámos albergados no alcácer com todas as honras e com toda a sorte de entretenimentos tendo por anfitrião o próprio ibn Qassi. Antes de partirmos lavrámos em conjunto o documento do pacto de irmandade e recebemos das mãos do Mestre sufi algumas ofertas simbólicas da futuwah (5)  entre elas uma saif (6) com os selos de Afonso I e de Ibn Qassi nela gravados.  Às palavras de Ibn Qassi que preferira tê-la entregue pessoalmente ao rei Afonso; respondeu um dos cavaleiros do rei ali presentes que 'tal acabara de ser feito'. O Mestre sufi levantando-se abraçou emocionado o cavaleiro reconhecendo-o. Era el-Rei Afonso de Portugal..."

Alvor teria tido um fosso natural como este que a rodeava a norte

Vestígios da estrutura do embarcadouro (lado norte)

O documento lavrado em ambos os idiomas e selado com os respectivos símbolos, foi assinado pelos presentes. Da parte dos nossos constam as seguintes assinaturas:

(Testemunhando pela Ordem do Templo)

Rodrigo Viegas
Gonçalo Anaya
Martim Gonçalves
Pedro Gaudins

(Conferindo pelo Rei)

(Pero) Afonso Monis
Pero Pais
Gonçalo de Souza



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(1) - Alvor na época era uma cidade com cerca de 5.000 habitantes. Para além da Medina (cidade velha) o resto da cidade prolongava-se para norte até onde são hoje os Montes de Alvor, protegida por uma cerca amuralhada.
(2) - Ainda existem vestígios desse ancoradouro numa reentrância da ria com ligação por uma rampa à actual igreja matriz.
(3) - Este fosso era uma falha natural, preenchida pelas águas da ria, que rodeava toda a zona norte da cidadela muçulmana transformando-a numa espécie de ilha. Começava no dito embarcadouro e prolongava-se até à Porta do Sol, a nascente, onde hoje é o rossio de Alvor.
(4) - Portas do Nascente ou Porta do Sol, que ficava no lado Oriental da cidadela; a entrada principal para quem vinha de Burjmunt (Portimão). Era servida por uma ponte (já desaparecida) que atravessava a Ribeira dos Moinhos. As outras duas entradas eram a Porta da Serra que ligava a norte o resto da cidade por uma ponte de madeira sobre o fosso e a Porta do Mar que dava directamente para a praia da ria.
(5) - Futuwah; cavalaria espiritual islâmica.
(6) - Saif; também chamada cimitarra. Espada de lâmina curva utilizada pelos guerreiros muçulmanos.


Fr. João do Paço
cronista-mor

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

al-Faghar (2)




Os Monges Negros de Sagres



Após a batalha de Ourique os Templários Portugueses regressaram a Soure trazendo consigo vinte Muridin que o Mestre acolhe na Sede da Ordem por uns tempos. Estes, aos poucos, foram-se instalando discretamente em Moçab-d'har onde montaram a sua base de acção partilhando em segredo as movimentações inimigas na zona.

Em 1140 testam-se as defesas da Lisboa árabe num ataque cristão que serve para infiltrar alguns Muridin junto com os camponeses que se refugiam dentro das muralhas da cidade. Em 1144 porém, Soure sofre um pesado ataque por parte das tropas de Abu Zacaria alcaide de Santarém que consegue assim punir a ousadia dos Templários por terem participado na batalha de Ourique.

Em resposta, sai de Coimbra uma força cristã que lança uma série de ataques nos arrabaldes de Santarém simulando querer recuperar os prisioneiros de Soure. Simulado é também o ataque ao castelo de Moçab-d'har de onde saem os Muridin misturados com a população que em fuga se refugia em Santarém. Os monges guerreiros de Ibn Qasi estão agora dentro das muralhas de ambas as cidades e esperam a hora de actuar.

É ainda neste ano de 1144 que Ibn Qasi volta a pedir auxílio a Dom Afonso I que lhe envia algumas tropas, essencialmente cavaleiros do Templo. É neste acto de entreajuda militar que os Templários vêem a oportunidade de saber mais sobre a questão das relíquias cristãs ocultas em Sagres. Ibn Qasi acede de boa vontade à pretensão dos aliados irmãos do Templo e volta a indicar o velho marabuto (homem santo), onde cinco anos antes havia ocorrido a reunião (junto da sua cuba) das forças conjuntas cristãs e sufis. Este informa então em pormenor quais as relíquias (será por este nome que será recordado até hoje o local do encontro) que se acham nas entranhas do albergue do Corvo, protegidas durante séculos pelos enigmáticos monges negros.

Os Templários Portugueses preparam então, nesse mesmo ano, uma expedição a Sagres a fim de negociar o traslado das relíquias para território cristão já consolidado. Não estavam no entanto preparados para o que iriam encontrar...

Num relatório feito por Fr. Romão consta o seguinte:

"O albergue a que os que por ali passam chamam de mosteiro é guardado por apenas quatro monges que vestem só de negro na tradição árabe. São no entanto antigos cristãos que nunca se converteram. Falámos ao que vínhamos e pareceu nos até que estavam à nossa espera tal foi o acolhimento que deram à proposta de meter a salvo da moirama as relíquias cristãs. Indicaram nos então o local onde se encontravam guardadas fazendo nos descer por uma grossa corda a um poço fundo que se acha dentro do albergue até uma cave onde se podiam ver metidos numa parede quatro ossários de pedra com símbolos inscritos. Foi grande a nossa alegria e espanto por achar ali o que antes havíamos apenas ouvido falar tantas vezes."

Albergue do Corvo

Foram trazidas para Coimbra em total segredo e guardadas no mosteiro de Santa cruz até que mais tarde foram definitivamente depositadas em Tomar, em túmulo comum, as seguintes relíquias:

"Uma caixa de calcário com tampa da mesma pedra medindo dois palmos de altura por um e meio de largura e dois e meio de profundo contendo ossário humano completo e tendo numa das  faces menor externa a inscrição in speculum*; MARIAM com os símbolos que aqui reproduzo: uma torre sobre colina em crescente lunar invertido encimada por estrela de oito pontas."

*- in speculum, espelhado.


"Uma segunda caixa da mesma pedra e tamanho também com tampa contendo ossário humano completo tendo numa das faces menor externa a inscrição in speculum; SARA com os símbolos que aqui reproduzo: uma árvore palmeira com quatro palmas e uma serpente enrolada de cabeça coroada com sol de cinco raios."


"Uma terceira caixa igual com tampa contendo apenas um crânio humano e tendo numa das faces menor externa a inscrição abreviada; BAPTISTA HOMO EST com os símbolos que aqui reproduzo: um crânio pairando sobre as águas."


Interrompemos aqui a descrição de Fr. Romão para vos mostrar em pormenor esta inscrição cujo conteúdo dissimulado é deveras revelador. Reparemos na forma como é feita a abreviatura: BAP(tista)HOM(o)E(s)T


Se ligarmos as letras maiúsculas obtemos a palavra BAPHOMET o que nos remete directamente para o conteúdo da caixa. No entanto o que nos chamou a atenção foram as minúsculas abreviadas. Se notarem bem no BAPTISTA temos abreviados os dois 't' (o primeiro sobre o A e o segundo sobre o separador ':') que compõem a palavra e que se apresentam em forma de cruz; o primeiro propositadamente rodado (cruz em aspa ou X; primeiro 't') e o segundo na posição normal (cruz em + ou segundo 't'). Em HOMO temos o último 'o' abreviado (sobre o segundo separador ':')  e em EST o 's'. Foi assim com grande surpresa (na altura do estudo deste documento) que juntando as abreviaturas obtivemos 'xtos' ou seja Christo.

E finalmente:

"Uma quarta e última caixa de calcário de menores dimensões sem tampa e vazia tendo numa das faces menor externa a inscrição; IOANNES FILIUS MEUS com os símbolos que aqui reproduzo: um Regium in speculum sobre letra O e coroado."



Este símbolo "Regium in speculum" (que se assemelha a uma flor de Lis) aparece representado em três das quatro caixas de ossários indicando que tanto Maria (Madalena) como seus filhos Sara e João trazem consigo o sagrado Sangue Real. Dom Afonso I sabedor deste pormenor (por ser Irmão no Templo) mandou cunhar dinheiro com este símbolo.


S. Vicente é outra história. Uma história sobre a qual nada temos registado que nos confirme a autenticidade das suas relíquias. A existirem, tudo indica que ainda estejam no Cabo Sagrado.



(os desenhos aqui apresentados foram por nós copiados dos esboços originais)



Fr. João do Paço
cronista-mor

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

al-Faghar (1)



Às portas do al-Gharb


Iniciamos aqui a série de artigos que nos propusemos divulgar sobre a presença da Ordem do Templo no al-Faghar muçulmano. São dados históricos do nosso acervo que transcrevemos na íntegra, descartando deles qualquer tipo de mito religioso. E fazêmo-lo, destacando um dos protagonistas da verdadeira história de Ourique, figura incontornável, que desempenhou um papel definitivo na expansão militar portuguesa do período áureo da "reconquista" cristã : Ibn Qasi.

De seu nome Abu'l-Qâsim Ahmad Ibn Al-Husayn Ibn Qasi nasceu no termo (à época) de Silves, perto de Alvor, no sítio ainda hoje chamado Mesquita, freguesia da Mexilhoeira Grande, concelho de Portimão, segundo testemunha um fragmento de texto de Ibn al-Salâ:

"... muladi (1) Abul Qasim [...] ibn Qassi natural da gariya (2) de al-Masjid (3) arrabalde de Albur no termo de Silves nascido a 22 de Rajab de 500 (4)..."


No ano da Hégira de 531 (1137) Ibn Qasi com uma centena dos seus muridin (discípulos-guerreiros) ataca a atalaia fortificada de Muntaqût (castelo de Alferce, perto da vila de Monchique) mas fracassa e muitos dos seus guerreiros são feitos prisioneiros. Ibn Qasi foge para o Norte e refugia-se com muitos dos seus seguidores em Moçab-d'har (Thomar), perto de Santarém.


Rezam as nossas crónicas (Livros de Guerra) que em 1138 o Mestre dos Templários sediados em Soure, D. Frei Guilherme Ricardo, ao tomar conhecimento que o líder Sufi se refugiara na zona, enviou-lhe dois cavaleiros do Templo (Fr. Paio Fernandes e Fr. João Álvares) para parlamentar com ele ao abrigo da amizade que unia as duas cavalarias. Foi aqui que se selou o primeiro pacto entre o movimento Muridin de Ibn Qasi e os Templários Portugueses, que previa a colaboração militar entre ambos.

Nesse mesmo ano de 1138 Ibn Qasi regressa ao ribat de ar-Rihana (Arrifana, Aljezur) e assiste ao intensificar da pressão das autoridades Almorávidas para o capturar. No início de 1139 existem já contactos entre as duas cavalarias para colocar em acção o plano para um ataque surpresa aos Almorávidas que estavam já em armas na região para o cerco final a Ibn Qasi. Abrem-se as portas do al-Gharb muçulnamo ao projecto Templário.


Formam-se dois pequenos exércitos cristãos que se predispõem a ajudar na defesa do Mestre Sufi e seus seguidores. Um, capitaneado por Afonso Monis que se desloca por terra a coberto da cumplicidade Muridin e outro, comandado pelo Mestre dos Templários que se desloca por mar e desembarca no porto fluvial do Wadi-Mihrâb (Odemira). A estes se juntam os Muridin comandados por Ibn Qasi e ambos esperam pela chegada de Afonso Monis.

A reunião das forças conjuntas de cristãos e sufis dá-se finalmente a 18 de Julho de 1139 no lugar santo de um murâbit, local que mais tarde ficará conhecido por Relíquias (cuja história iremos desenvolver mais à frente). É, não muito longe dali, no raiar do dia 25 de Julho, no campo de Panóias, que se irá dar o confronto entre Ibn Qasi (apoiado pelas tropas cristãs) e as forças Almorávidas que, não esperando a presença dos cristãos que os atacam pela retaguarda, ficam cegas pelo sol e, desorientadas, saem completamente desbaratadas no recontro.

Como agradecimento, Ibn Qasi confirma o pacto feito com o Mestre do Templo, dispondo-se a ajudar nas futuras acções militares que os cristãos efectuem do Mondego à linha do Tejo. Tal facto pôde ser comprovado no caso da tomada de Santarém e de Lisboa, conforme já narrado por nós. Revela ainda Ibn Qasi a presença de relíquias cristãs muito antigas guardadas em segredo pelos monges negros que habitam o Cabo Sagrado (Sagres).

O entusiasmo cristão pela vitória foi tal que, na presença do Mestre Sufi e dos seus Muridin, os Templários Portugueses propõem celebrar ali mesmo, junto com o restante exército portucalense, a coroação de Afonso Monis. Para tal, realizam o velho cerimonial celta de colocar aos ombros e em pé sobre um escudo circular coberto pelos estandartes ali presentes, aquele que aclamam Rei, Afonso primeiro de Portugal. Rei-Templário, no segredo Pêro Afonso Monis, e que a História conheceu como Dom Afonso Henriques.

"Que tu irmão Templário e senhor
sobre este símbolo de união te eleves nosso Rei.
Por tu Graal!  Por tu Graal!  Por tu Graal!"


(Neste evento é armado cavaleiro pelo recém-aclamado Rei, aquele que se tornaria um dos irmãos mais carismáticos da nossa Ordem; Dom Gualdim Paes)


_______________________________________________
(1)- Descendente de cristãos convertidos ao Islão originários do Andaluz
(2)- Alcaria, vila, povoado pequeno
(3)- Mesquita
(4)- 19 de Março de 1107

Fr. João do Paço
cronista-mor

(que sucede a Fr. Manuel FB) 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Entre Tempos



Como costumamos dizer:

"Não existe tempo no caminho do Templo."

Por isso parecerá estranho a todos vós este intervalo de tempo que medeia entre as últimas publicações de Julho de 2017 e a última de Junho deste ano de 2018.

Um interregnum de um ano, portanto.

Acontece que, neste entre-tempo, temos procedido prioritariamente ao intensivo estudo, transcrição e arquivamento do material histórico já acumulado e do que nos tem chegado ultimamente vindo das nossas fontes do Norte de África (principalmente), o que nos obrigou a esta suspensão de edição no blogue dos Templários Portugueses.

Estamos agora, em melhores condições para prosseguir, retomando a prometida série de artigos sobre o Al-Faghar assim como iremos criar uma nova etiqueta a que chamaremos 'Actualização', onde serão, de facto, actualizados alguns dos artigos já publicados, mediante as novas leituras que se nos depararam ao longo deste penoso ano de silêncio.

Apresentando aqui as nossas mais humildes desculpas, rogamos a vossa compreensão, esperando que continuem connosco.

Abraço fraterno.

o irmão Principalis

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Rumo ao Paraíso




Escapo-me de ti Al-Burj (1) com a lua cheia
Deixando para trás tua forma já difusa
Durmam bem irmãs faluas... até amanhã

Vou levado na suave brisa da maré-meia
Guiado pelo chamado de minha Musa
Rumo ao cais das Fontes de Hassan

                          §

Saúdo-te ó Ar-Ra'ad (2), rio-trovão
Saúdo Burj'munt (3), tua cidadela
Suavemente adormecida à beira-rio

Simulando cansado guardião
Mas sempre atenta sentinela
Quem teu forte pulso já não sentiu?

                         §

Baixa esta noite a guarda, venho em paz
Troquei meu fiel alfanje pelo frágil alaúde
Embriagado de Lua até que chegue a manhã

Deslizando no silêncio que a hora traz
Passarei Xanar'burj (4) antes que a maré mude
Rumo ao cais das Fontes de Hassan (5)

                         §

Quero inebriar-me no teu doce perfume
Afundar-me no mar azul do teu olhar
Beber desses lábios todo o teu sorriso

Na volúpia dos teus seios acender meu lume
E no teu corpo incendiado voltar a navegar
Perdidos de amor rumo ao Paraíso

                          §

Se eu não voltar, Ar-Ra'ad
Saúda por mim as faluas de Al-Burj

al-Bideru bin al-Muni

__________________________________________________
(1) - Al-Burj, "a torre", de onde derivou Albur, a actual Alvor.
(2) - Ar-Ra'ad, hoje Arade, rio que banha Silves e tem foz em Portimão.
(3) - Burj'munt, que por má interpretação dos cruzados tomou o nome de Porcimunt, é hoje a cidade de Portimão.
(4) - Xanar'burj, a "torre de Xanar", conhecida pelos cristãos por Xanabus existiu na que é hoje Estombar (e não S. Brás de Alportel).
(5) - Fontes de Hassan serão actualmente as "fontes" de Estombar.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Tombo:LXXII


Documentos dos Templários Portugueses
guardados na Torre do Tombo

29 de Julho de 1230

Carta de Convenção entre o Bispo de Viseu e a Ordem do Templo,
outorgando este à Ordem o direito de apresentar
a Igreja de Santiago de Trancoso.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Prólogo a Al-Faghar



Pegadas no tempo
(do poeta Ibn Musa)



Descalço...
desço a calçada do castelo
e sento-me lânguidamente
nas margens da al-djazira.

Espero paciente que a maré suba
e me venha banhar os pés nus
com as pequeninas ondas
que parecem querer brincar.

Fazem-me lembrar a infância
quando chapinhava nas ondas
das praias da minha aldeia natal...
Saudosa Temara!

Agora finjo que as crianças
agitam esse outro lado do mar
chegando aqui em pequenas ondas
o eco longínquo desse doce brincar.


[...]

...enquanto a maré sobe lenta
vou sentindo o vibrar do chão
à passagem dos velozes cavaleiros
do ribat de meu senhor Ibn Qasi.
Ibn Musa
1086-1168
Aljezur

sábado, 15 de julho de 2017

Os Templários no Algarve árabe


Nova série de testemunhos sobre Al-Faghar (Algarve)

 Na sequência dos recentes e lamentáveis acontecimentos ocorridos em Tomar, os quais reflectem o profundo e continuado desrespeito pela memória da Ordem do Templo - que quase nos levaram ao encerramento deste blogue em sinal de protesto - ficou decidido rumarmos a Sul onde os Templários Portugueses tiveram uma prematura e discreta presença, pontuada depois por algumas participações militares até à definitiva conquista do reino do Algarve.
Proximamente, iremos dar a conhecer numa série de publicações, nove episódios ainda inéditos, dos muitos que constam dos Livros de Guerra da Ordem portuguesa.



- Onde eram recebidas e por quem, às portas do Algarve ainda muçulmano, as delegações portuguesas da Ordem do Templo enviadas em segredo por El-Rei D. Afonso I?

- Como entregou El-Rei D. Afonso I pessoalmente e em completo sigilo na praça fortificada de Al-Burj o simbólico e enigmático presente de cavalaria ao seu aliado Ibn-Qasi e no que consistia?

- Que motivos estiveram realmente por detrás da ida ao Promontorium Sacrum para a recolha das relíquias de S. Vicente? Onde ficava o Mosteiro do Corvo e quem eram os monges que o habitavam? O que levaram realmente para Lisboa?

- Que tesouro resultante da pilhagem da primeira tomada da cidade árabe de Silves se perdeu misteriosamente a caminho do Norte da Europa levado por um protegido do flamengo bispo Nicolau?

- Que testemunho sobreviveu até hoje das cerimónias religioso-militares feitas pelos Templários Portugueses em terras mouras algarvias antes da tomada de Silves?

- Onde pára a Cruz de Portugal oferecida por S. Bernardo de Claraval aos Templários Portugueses, levada por estes e perdida na primeira tomada de Silves?

- Onde ficava o hospital de campanha dos monges-soldados Templários feridos na tomada de Silves e o seu cemitério?

- Como ajudaram os Templários Portugueses os habitantes de Silves a refugiarem-se em Monchique salvando todos os seus pertences de mais valor que nunca foram resgatados? 

- Que testemunho arquitectónico dedicado a Santa Maria Madalena deixaram os Templários Portugueses no Algarve recém-conquistado?