quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Balada de um soldado Templário



Mestre,
esta noite nas muralhas
entre ferros e bombarda
vi um inimigo correr
a noite estava cerrada

brandi  forte minha espada
e enquanto o retalhava
um clarão iluminou
o rosto que eu matava

dei com ele a fixar-me
com seus olhos já sem vida

Mestre,
sabeis quem matei?
aquele soldado inimigo
era meu amigo Qusay

companheiro de criança
com quem tanto eu brinquei
aos soldados e fossados

hoje a luta foi real
meu amigo já se enterra
Mestre,
eu quero morrer
estou farto desta guerra

se voltar a escrever-vos
talvez o faça do céu
onde encontrarei Qusay

e brincaremos de novo
aos soldados e fossados

Mestre,
esta noite nas muralhas
sabeis quem eu matei?

aquele soldado inimigo?
era meu amigo Qusay...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Documento IV

Confirmaçaõ da Doaçaõ de Soure, que tinha feito a Rainha D. Tereza, pello Senhor Rey D. Affonso Henrriques sendo Infante, ou Princepe de Portugal em 1129.

Em nome da Santissima Trindade Padre, Filho, e Spirito Sancto, Trindade Indivisivel q nunca terá fim mas permanecerá por infinitos seculos dos seculos. Amen. Eu Illustre Infante D. Affonso Neto do grande D. Affonso de boa memoria Emparador da Hespanha, e filho do Conde D. Enrique, e da Rainha D. Tereja, e pella mizericordia de Deos Princepe dos Portuguezes; em honra de Nosso Senhor Jesu Christo, dou a vos Soldados do Templo de Salamaõ o antigo Castello que se chama Soure, o qual está cituado na estremadura em territorio de Coimbra agoas vertentes ao Mondego. Douvos, e concedo vos o tal Castello com todos os seus foros que saõ, e forem para que vós os tenhais firmemente, e todos vossos successores para sempre, e esta doaçaõ faço naõ por mando, ou persuaçaõ de alguem, mas por amor de Deos, e por remedio de minha alma e de meus Pais, e pello cordeal amor que vos tenho e porque em a vossa Irmandade e em todas vossas boas obras sou Irmão. E se algum homem assim dos estranhos como dos Propinquos quizer impedir, ou anullar esta minha Doaçaõ, o qual totalmente naõ creo se fasa, pague quatro vezes em dobro o tal Castello a vós Cavalleiros do Templo, ou a qualquer que estiver em vosso nome, e ao poder real, o que manda o livro dos Juizes. Feita a Carta de Doaçaõ, e firmeza aos treze de Março da era de Mil cento, e secenta e sete.
Eu o Infante D. Affonso com minha propria
maõ roboro esta Carta.
Os que foraõ prezentes em Guimarens.
Bernardo Bispo de Coimbra.....Conf.
Ermigio Monis..........................Conf.
Egas Monis...............................Conf.
Mendo Monis...........................Conf.
Lourenso Alferice....................Conf.
Raimundo Garcia....................Conf.
Pedro Paes.............................Conf.
Egas Gozende.........................Conf.
Payo Goterres da Sylva...........Conf.
Ermigio Venegas....................Conf.
Joaõ Rania............................Conf.
Soeiro Mendes.....................Conf.
Pedro Paes..........................Conf.
Pedro...................................Conf.
Payo....................................Conf.
Pedro Cancelario do Infante a notou.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Diálogo na noite



- Asalam aleikum, mestre Gualdim.
- A paz esteja contigo também, Ahmed.
- Entre nós haverá sempre paz, mestre. Assim está escrito nas estrelas.
- Já poucos homens olham as estrelas, irmão.
...
- Está sem dúvida uma linda noite, mestre.
- Diz-me irmão, os teus antepassados também contemplavam as estrelas?
- Como num espelho.
- Como assim!?
- Sou descendente de tribos ancestrais que habitaram as terras altas do Atlas. Os Imouharen, que significa: os livres. Também conhecidos por guerreiros azuis por usarem o tagelmust, o véu azul.
- Descendes então do povo tuaregue?
- Sim mestre. Contam os antigos que em tempos muito remotos o meu povo atravessava de África para a Península a vau, através das grandes cascatas, ainda antes do grande oceano engolir as terras médias e vinham até aqui. Muitos ficaram por cá.
- Então o sangue dos que falam tamasheq anda por aqui, misturado, desde o fundo dos tempos?
- Assim parece. O meu povo costumava tatuar as estrelas no peito. Diziam que cada uma delas representava um amigo que ficava deste lado. E como as observavam de lá, imaginavam-nas como que reflectidas num espelho para os que as olhavam no céu, daqui.
- Interessante o que me contas, Ahmed. Não te atraiem as tuas raízes?
- Nasci nesta terra, mestre. Nunca conheci outra. Como a poderia trocar? Amo cada gota de água destas fontes, cada recanto destes bosques, cada pedra, ...
- Nenhuma será tocada, prometo-te.
...
- Entrego-te o castelo esta noite, mestre. De manhã, pelo raiar do sol já todos teremos partido.
- Enganas-te Ahmed. O meu Rei e senhor pede-vos que fiqueis. Nada vos será tirado. As vossas casas, as vossas terras, a vossa fé. Este é o seu desejo e o meu também. Do fundo do coração.
- Grande alegria me dás irmão. Se é esse o teu desejo e o do teu Rei e senhor, aceito comovido em nome dos meus. Alá é grande!
...
- É impressão minha ou esta noite as estrelas estão mais brilhantes? Que te parece alcaide?
- A mim parece-me que andam por lá a escrever algo de belo...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Longroiva


Vista geral de Longroiva


O Castelo de Longroiva está situado no ponto mais alto do antigo castro de Longobriga.
No inventário dos bens do Mosteiro de Guimarães, no ano de 1059, vem relacionado este castelo. Neste período, ocorre um expressivo surto de povoamento na região, atribuído a D. Egas Gozendes, que outorga uma Carta de Foral a Longroiva em 1126, e posteriormente, a D. Fernão Mendes de Bragança (esposo da Infanta D. Sancha e, portanto, cunhado de D. Afonso Henriques), que doa estes domínios de Longroiva à Ordem do Templo em 1145, sendo Mestre Hugo Martins.

Em 1176, Mestre D. Gualdim Pais reedifica o castelo e na Torre de Menagem monta um hurdício (galeria de madeira que, no topo dos muros, permitia o ataque vertical sobre o inimigo) como denunciam os encaixes talhados nos silhares onde este se apoiava o que a torna o primeiro exemplar da arquitectura militar portuguesa a adoptar este sistema.
Ainda se pode ver a inscrição comemorativa da construção da Torre de Menagem gravada em três silhares na fachada Oeste e que dizem:

[IN E]RA MCCXII MAGISTER GALDINUS CONDUTOR PORTUGALENSIUM MILITUM TEMPLI REGNA[NT]E ALFONSO PORTUGALENSIUM REGE CUM MILITUBUS SUIS EDIFICAVIT HANC TURRIS

Tradução: "Na era de César de 1214 anos (1174), Gualdim, chefe dos cavaleiros portugueses do Templo, mandou edificar esta torre com os seus soldados, reinando Afonso Rei de Portugal".

 Este reduto Templário constituiu uma posição estratégica militar importante durante a fase transitória da reconquista e foi uma base principal para os cavaleiros da Ordem do Templo.

D. Dinis (1279-1325) concedeu foral à vila, e, em 1304, mandou fazer alguns reparos no castelo. Ainda no seu reinado, em 1319 e perante a extinção da Ordem Templária, os domínios da povoação e seu castelo foram incorporados ao patrimonio da Ordem de Cristo, sua sucessora.
Quase no extremo norte do vale mantém-se ainda um testemunho do aproveitamento agro-pecuário, que a Ordem de Cristo aqui fez, conservado no nome da "Quinta do Chão de Ordem". Os núcleos populacionais, anexos de Longroiva, nascidos de antigas vilas agrícolas romanas, ou de herdades medievais sob a protecção dos Templários, são as Quintãs, a Quinta da Relva, a Quinta da Cornalheira e a dos Gamoais.

A 25 de Outubro de 1507 dá-se a visitação de Frei João Pereira, da Ordem de Cristo, ao Comendador Frei Garcia de Melo, que executou benfeitorias no castelo, onde consta que a praça de armas havia sido quase que inteiramente tomada pelo Paço do Comendador:
"torre de dois pisos e edifício que constitue os aposentos do Comendador, de dois andares com cinco divisões em cada, com chaminés em tijolo e forro interno de madeira, a que se adossavam casa de hóspedes, cozinha com forno, celeiro e estrebaria".*
Na torre de menagem, ao centro da praça de armas, defendida por um hurdício, rasgava-se uma janela mainelada, em estilo manuelino, que chegou aos nossos dias. Em 1510 D. Manuel concede-lhe Foral Novo.

No século XVIII, uma descrição do castelo referia que com relação ao paço "novo" do comendador, as suas casas "encontravam-se já destelhadas e em ruína", a cisterna, que abastecia a guarnição, entupida, e as portas do castelo, que no passado haviam defendido o acesso, não possuíam já qualquer grade ou portão de madeira.
No último quartel do séc. XVIII, o castelo foi transformado em pedreira local, e desmanteladas as suas muralhas. Em 1855 foi extinto o Concelho de Longroiva. Nesse período, provavelmente a partir da extinção das ordens religiosas (1834), a sua praça de armas passou a ser utilizada como cemitério da vila, função que perdura até hoje.

Foi na capela da Senhora do Torrão, originariamente um pequeno templo românico, junto ao castelo, que os Templários deixaram os testemunhos mais expressivos da sua passagem, designadamente a consagração da pequena capela em honra de Santa Maria, S. Nicolau Confessor e outros santos,  uma tampa sepulcral com uma cruz de Cristo esculpida e uma espada, e uma outra cruz de Cristo no antigo Tribunal e Cadeia.


Actual estado do castelo; reconstrução moderna

Silhares da torre de menagem com inscrição

Entrada da torre com vestígios do hurdício

"Cruz" Templária inscrita na rocha
idêntica à de Castelo Novo

Poço da cisterna do castelo na praça de armas

Capela da Sra do Torrão, lateral à matriz


Tampa de sepultura


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* - Aqui fica uma curiosa descrição do castelo:

   "Acima um pouco da dita igreja tem a Ordem um castelo, em que tem uma torre de menagem, toda de cantaria lavrada, e de boa altura. E tem dous sobrados, igualmente madeirada e coberta de telha vã, e tem uma boa janela nova contra o ponente, com suas portas novas. E leva a dita torre pelo vão 5 varas de longo e 3 varas de largo. Tem um portal pequeno, com suas portas ainda boas. Arredor da dita torre está o aposentamento do dito comendador, ao qual entram per um portal novo de cantaria, bem obrado, com suas portas bem fechadas. E além do dito portal está um arco, outrossi de cantaria. E à entrada do dito arco está um recebimento pequeno, em que está uma cisterna. E logo à mão direita está uma sala, novamente feita com seu portal e paredes de cantaria, e tem suas portas novas. Esta sala é sobradada, e sobem a ela per uma escada de pedra com seu mainel outrossi de pedra, e tem ao norte uma boa janela de assentos, com suas portas boas e novas. Ao centro desta sala está ora feita de novo uma chaminé grande, de madeira barrada e sobre a dita escada e na dita sala estão uns almários novos de castanho. Esta sala leva de longo 8 varas e 4 e meia de largo. E leva uma casa de baixo deste tamanho. À mão direita da entrada da dita sala está uma câmara que está sobre a primeira entrada, outrosi novamente feita, bem madeirada de madeira de castanho, e telhada de telha vã. E tem uma janela de assentos com suas portas novas, contra o ponente. Leva 5 varas de longo e 4 de largo. A dita sala tem as paredes cafeladas da parte de dentro. À mão sestra da entrada da dita sala tem outra sala velha, com um portal novo de pedraria e suas portas novas, madeirada de madeira velha e coberta de telha vã, que leva 7 varas de longo e 5 de largo. E está nela uma escada de madeira, per que vão à dita torre. Debaixo desta sala vai uma logea, do tamanho dela, que ora serve de adega. Além desta sala está outra casa pequena, velha, madeirada de castanho e telhada de telha vã. E tem uma janela nova de pedraria, com seus assentos e portas, contra o levante. Esta casa leva de longo 6 varas e 3 de largo. Além desta casa está outra casa pequena, da dita maneira, que se não mediu por estar fechada. Diante da dita sala e câmara novas e no dito recebimento está uma casa sobradada, que é casa de hóspedes. As paredes de cantaria, bem obrada, igualmente madeirada e coberta de telha vã. E tem uma janela contra o ponente. Leva de longo 5 varas e 4 de largo, e é sobradada. Além desta casa vai outra casa térrea que serve de cozinha, e tem dentro um forno. Está madeirada de madeira velha, e telhada de telha vã. E leva 7 varas de longo e 4 de largo. Além desta casa está outra casa que serve de celeiro, térrea, coberta de telha vã. Leva 6 varas e meia de longo e 6 escassas de largo. Junto da dita torre constra o sul está uma casa térrea, que serve de estrebaria, com suas manjedoiras, telhada de telha vã. Leva 7 varas de longo e 5 de largo. Estas casas estão cercadas pela maior parte de muro velho, per partes derribado, que foi já em outro tempo cerca do dito castelo. E diz-se que foi já aqui convento dos cavaleiros do Templo."