terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Graal - Cálice de Vida




Tu que buscas o Graal, diz-me:
Se Ele não está mais visível,
sabem os teus olhos o que procurar?
Se o Selo foi quebrado e o Elo Sagrado se perdeu,
porque continuas tu a sentir o seu pulsar?

Diz-te a vaidade, que é um cálice de ouro.
Pois bem, que seja de ouro o teu cálice.

De todas as areias da Terra,
recolhe os finissimos grãos de ouro.
Junta-os, até teres as três partes necessárias.
Com o Fogo Eterno molda-o no mater cadinho.

Das brumas do tempo, recolhe as gotas de orvalho
depositadas, nas pétalas rubras da Rosa,
pelo Ar frio da ancestral madrugada.
Verte-as no Cálice, pois são as restantes sete partes.

Da Água dos grandes oceanos,
retira uma pequena pitada do Sal da Vida.
Dissolve-o no teu Cálice, como um sopro Divino.
Com Ele, o seu conteúdo ganhará a Ânima necessária.

Agora que já consegues "ver" o teu cálice,
abeira-te Dele. "Olha" bem para o que contém.
Se os teus olhos ficam confusos e ainda tens dúvidas,
continua a tua demanda. Estás quase a descobrir-te.

Se o teu coração consegue ver-se no reflexo,
então Irmão, não procures mais;
Existe toda a probabilidade de, o Graal
que tanto procuras, afinal,
seres TU.


Documento XIII

Da doaçaõ da Villa de Cintra à Ordem dos Templários

Em nome da Santa e Individua Trindade Padre, Filho , e Spirito Santo. Amen.  Eu Affonso, por graça de Deos, rey dos Portuguezes, com minha mulher a Rainha D. Mafalda, fazemos Carta de Doaçaõ e firmitude, a vos Mestre Gualdim, e vossos freyres soldados, do castello e Villa de Cintra, [...], varzea de S. Martinho, cazas de Villa Verde e herdades de Santa Maria e S. Miguel,  [...]  açudes e azenhas que estaõ junto do mar. Eu Affonso sobredito Rey com minha mulher a Rainha D. Mafalda, de tudo isto fazemos doaçaõ a vos Cavalleiros do Templo de Jerusalem e por nossas maons a roboramos. Foi feita a Carta no mes de Março de mil cento e secenta e hum.
Eu Gonsalo de Souza Trinchante mór a confirmo.
Eu Pedro Paes Alfers mór ...................... a conf.
Eu Gilberto Bispo de Lisboa ..................... conf.
Lourenço Viegas ...................................... conf.
Sancho Monis .......................................... conf.
Erminio Viegas ......................................... conf.
Mendo Gonçalves .................................... conf.
Soaeiro Mendes ....................................... conf.
Rodrigo Monis .......... test.              Pedro Payo .............. test.
Rodrigo Viegas ......... test.              Vasco Fernandes ...... test.
Martim Joaõ ............. test.               Pedro Rodolfo ......... test.
Pedro Galdins .......... test.               Martim Monis ........... test.
Alberto Cancelario a notou.
O Mestre do Templo em Portugal Gualdim a recebeo em Cintra.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Regra:cap.XX

Regra dos pobres Cavalleiros do Templo na Cidade Santa de Jerusalem

Do modo do vestido

Capítulo XX

Mandamos, que nos vestidos sejaõ sempre de huma cor, como branco, ou negro, ou por melhor dizer de burel.  Declaramos a todos os Cavalleiros professos, que no Veraõ, e Inverno, podendo ser, o vestido branco, para que, pois deixaraõ as trevas da vida secular, se conheçaõ por amigos de Deos no vestido branco e luzido.  Que he a cor branca? senaõ inteira pureza.  A pureza he segurança do animo, e saude do corpo.  Se o Religioso Militar naõ guardar pureza, naõ poderá chegar à eterna felicidade, e vista de Deos, affirmando S. Paulo: "Guarday paz com todos, guarday pureza, sem a qual nenhum verá ao Senhor".  Mas porque este vestido nem ha de mostrar vaidade, nem gala; mandamos, que seja de tal feitio, que cada hum só se possa vestir, despir, calçar, e descalçar.  O que tiver o cuidado de dar os vestidos, cuide com toda a attençaõ, que nem sejam compridos, nem curtos, senaõ ajustados à proporçaõ de quem se veste.  Sahindo com vestido novo, entreguem o que deixaõ, para se guardar na rouparia, ou no lugar, que escolher o que tem esta incumbencia, para que sirvaõ aos escudeiros, e criados, e algumas vezes aos pobres.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Um pouco de calor humano


O dia está cinzento, frio e chuvoso.
Na grande cidade um carro circula, anónimo, na torrente do trânsito.
De repente trava e pára mesmo no meio da enorme fila.
O condutor sai e dirige-se à bagageira. Abre-a e retira um grosso casacão impermeável.
Enquanto ao volante, tinha reparado numa figura magra que tremia descontroladamente encostado a uma árvore do passeio. Vestia umas calças esfarrapadas e uma camisa de manga curta. Para além disso estava descalço e completamente encharcado. Mas o mais doloroso era a visão daquele rosto frágil, numa expressão de súplica.
Os carros da frente tinham começado a avançar. Os condutores dos de trás, impacientes, começavam a buzinar.
Sem ligar aos protestos, dirigiu-se ao pobre homem e envolveu-o com o casaco, descalçou as botas de montanha e retirou as meias de lã. Num gesto de humildade ofereceu-as também.
Levou a mão ao bolso e retirando todo o seu conteúdo, disse:
- Tome este dinheiro, saia da rua por esta noite e procure tomar uma refeição quente.
Surpreendido, o homem ainda tiritando de frio, perguntou:
- Quem é você? Porque faz isto?
- Um amigo que oferece o pouco que tem. Espero que chegue para o ajudar, de momento.
- Esse anel... conheço essa cruz... Obrigado, amigo. Que Deus lhe pague...
- Ele devolve-me sempre. A dobrar...!
Descalço, sorrindo, regressa à viatura imobilizada, perante a admiração de todos os que presenciavam a inesperada cena.
Feliz, com um calor especial a envolver-lhe o coração, arrancou, anónimo, na torrente do trânsito da grande cidade.

"Velhos e esfarrapados", apesar de anónimos, continuamos por cá...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Documento XII

Que confirma o Magisterio de D. Pedro Arnaldo terceiro Mestre.

In Christi nomine, Ego Sancia Venegas una pariter cum Filiis meis Gundisalvus Suarij, & aliis in Domino Deo, & ne sit ãm.  Placuit nobis pro bono pacis, & voluntas ut faceremus tibi Petro Arnaldo P. do Templo &c.
Facta Carta venditionis, & firmitis die, quod eri K Aprilis. Era M.CXCIIIIJ.
Ego Sancia Venegas una cum Filiis meis tibi Petro Arnaldo in hac Carta manus nostras roboramus.
Petrus .......... Pelagius ................. test.
Menendus ................................... test.
Johanes p'2b'2 scripsit.

Documento XI

Confirmaçaõ dos Privilegios, Graças, e Bens da Ordem do Templo, que a instancia, e suplicas do Papa fes o Senhor Rey D. Affonso I, sendo Mestre D. Pedro Arnaldo.

Em nome da santa, e individua Trindade Padre, Filho, e Espirito Santo.  Eu Affonso Rey dos Portuguezes Filho do Conde D. Henrique, e da Rainha D. Tareja, e Neto do Grande, e Emperador de Hespanha, sou constrangido por Breves Apostolicos do Supremo Pontifice a dar piedoza, e gratuita liberdade, e imunidade, a vós Pedro Arnaldo Procurador da Milicia do Templo nestas partes, e a vossos Freires, e a todos os vossos Coutos, Igrejas, Villas, e homens, e possessões, quaesquer que de presente tendes, e adiante possais adquirir, assim como inteiramente se contem em Privilegio Romano, que do mesmo Pontifice alcansastes; convem a saber que eu ampare, e defenda, e a todas as vossas cousas, que tendes em meu Reino, das injurias todas, que se fizerem, e ainda vos confirme, e robore os tais privilegios, e imunidades por carta minha asignada de minha propria maõ.  Por tanto eu vos couto, e confirmo todas as vossas possessões assim adquiridas, como por adquirir, Igrejas, Villas, herdades, rendas, servos, e escravas, mossos, e todos os mais que estiverem sugeitos ao Senhorio Real, habitando em vossos coutos, herdades, ou Igrejas, de tal modo que nenhuma pessoa se attreva em tempo algum violar vossos coutos, ou devassar vossas herdades, ou prender vossos homens, ou molestar a algum de vós; nem menos pedirvos conta do crime, que algum dos vossos homens cometter.  De mais disto eu absolvo a todos os homens, que morarem em vossas herdades de toda a obra, ou negocio servil, e de todo o tributo.  Se porém algum dos homens moradores em outras vossas herdades fóra de vossos coutos, fizer algum furto, ou homicidio, ou cometter força, e for legitimamente convencido do tal delicto, deixada toda a mais fórma de direito se comporá com as partes, confórme sua possibilidade, de tal modo que naõ perca a sua caza, e do que pagar pela dita composiçaõ, será ametade para mim, ou para meu successor, e a outra metade ficará em a mesma herdade da Ordem, em que o criminoso estiver.  E tambem concedo, que nunca pagueis portagem na passagem a alguma pessoa das cousas, que da dita Ordem se venderem, ou para ella se comprarem.  Por tanto todo aquelle, que quizer quebrantar esta minha pagina de Privilegio, e Izençaõ a qual sou obrigado por mandado Apostolico a confirmar, e corroborar, crea que me tem por seu inimigo; e depois que inteiramente restituir tudo o que tirou, pagará quinhentos soldos: eu concedo, que seja ametade para aquella casa de Deos, e Templo de Salomaõ.  E álem disto o quebrantador deste meu privilegio seja maldito até settima geraçaõ, nem mereça no dia do juizo ter perfeita resurreiçaõ, mas padeça as penas do Inferno com Judas traidor, e com Simaõ Mago, e com Datan, e Abiron, aos quaes a terra tragou.  E de mais disto digo, e mando que em nenhum tempo os Freires do Templo, ou as suas cousas sejaõ penhoradas por qualquer causa sem que a tal causa de serem penhoradas se profira em minha presença, e qualquer causa dos taes Freires sempre se termine por inquiriçaõ de homens bons.  Feita a Carta aos cinco de Abril Era de mil cento cincoenta e seis.
Eu Affonso Rey dos Portuguezes juntamente com minha mulher a Rainha D. Mafalda, e com meus filhos com nossas proprias maons roboramos com este -|-|-|-|.+ signal esta Carta a vós Pedro Arnaldo Procurador da Milicia do Templo em estas partes, e a vossos Freires assim presentes, como futuros, e ao religioso Templo de Salomaõ.  E eu Joaõ por graça de Deos Arcebispo de Braga de commum consentimento de meus Conegos concedo que esta Carta de privilegio permaneça sempre estavel, ileza, e firme; e aquelle que a guardar em seu theor, e em sua força seja cheio de bençaons, e lhe lance a sua bençaõ áquelle, que a lançou a Abrahaõ, Izaac, e Jacob, e more para sempre nos Ceos com os Anjos, e Escolhidos do Senhor; e pelo contrario aquelle, que a quizer perturbar, e inquietar, ou quebrantar seja maldito, e excommungado, e atormentado no Inferno com Judas traidor.
Eu Pedro Pais Alfers do Rey ............. Conf.
Eu Pedro Bispo do Porto .................. Conf.
Eu Mendo Bispo de Lamego ............. Conf.
Eu Odorio Bispo de Vizeu ................ Conf.
Eu Gilberto Bispo de Lisboa ............ Conf.
Joaõ ............................ test.          Pedro Fernandes .... test.
Payo ............................ test.           Rodrigo Monis ...... test.
Sancho Monis .............. test.          Vasco Sangles ....... test.
Dono Nojo ................... test.          Egas Favile .......... test.
Menendo Affonso ........ test.          Lourenço Egas ...... test.
Gonsalo de Souza ....... test.          Pelagio Sapata ...... test.
Mestre Alberto Chanceler da Curia Real o notou.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

D. fr. Gualdim Pais

4º Mestre em Portugal
1158 - 1193
Cavaleiro português, nos reinados de D. Afonso I e D. Sancho I

Nasceu em Marecos (a actual Barcelinhos, Braga), a 14 de Abril de 1118.
Foi seu pai, Payo Ramires, filho de Ramiro Ayres, carpinteiro, e sua mãe D. Gontrade Soares, do ilustre ramo dos Correias.
D. Gualdim foi protegido de D. Afonso I e educado no paço. Participou com ele em 1139 na batalha de Ourique (no campo de Panóias), onde foi investido cavaleiro pelo então já proclamado 1º Rei de Portugal.
Dá entrada na Ordem do Templo por sugestão do soberano ao mestre D. Hugo Martónio.
É já na qualidade de cavaleiro Templário que, nos finais de 1151, parte para a Palestina, onde permanece por cinco anos. Participa na conquista de Ascalon, no cerco de Gaza e na rendição de Sídon.
Regressa em 1156, logo após a morte do Mestre Geral da Ordem André de Montbard, de quem traz directivas bem precisas para o Mestre português D. fr. Hugo de Martónio.
Traz consigo, como relíquias, a mão direita de S. Gregório Nazianceno, que conservou em Thomar, alguns manuscritos e uma outra relíquia que depositou secretamente na igreja do Santo Sepulcro, no castelo de Penha Alva (de que falaremos mais tarde).

À chegada, o Rei eleva-o a Comendador de Braga e Procurador do Templo, cargo este que recebe, por já haver sido eleito Mestre D. fr. Pedro Arnaldo que sucedia a D. fr. Hugo após a morte deste, ocorrida no ano anterior.
Na conquista de Alcácer do Sal, o Mestre D. fr. Pedro Arnaldo morre durante a escalada às muralhas do castelo e nesse mesmo ano de 1158, a 17 de Outubro, D. fr. Gualdim Pais é eleito Mestre Provincial em Portugal.
O novo Mestre, por doação de Afonso I, recebe em Março de 1161 o castelo e a Vila de Sintra e seu termo que ascende a Comenda. Nesse mesmo ano o monarca faz doação a D. Gualdim, a título particular, de umas "Cazas" nos arrabaldes da mesma.

É com ele que a Ordem do Templo vai ter a maior importância no seu estabelecimento e expansão em Portugal.

O Rei D. Afonso I após a conquista da praça de Santarém, faz doação desta aos Templários, em cuja tomada estes participam e para a qual transferem a sua sede. Devido à disputa do eclesiástico da Ordem por parte do Bispo de Lisboa D. Gilberto (de Hastings), D. fr. Gualdim, insatisfeito com a situação, efectuou uma concordata entre as duas partes com o beneplácito do Rei. Ficou estabelecido que o soberano doaria aos Templários toda a região de Ceras (1159), dela ficando senhores, tanto no eclesiástico como no temporal, bem assim como da igreja de Santiago, em Santarém.

Na região doada à Ordem, D. fr. Gualdim manda iniciar, no primeiro de Março de 1160, a construção do castelo de Thomar (de que toma o nome do rio), sobre o que restava do castrum de Ceras. Aproveita inicialmente as ruinas da fortaleza e da igreja circular moçárabe existentes, meio derrubadas e abandonadas no cimo do monte. Para tal, utiliza materiais de construções antigas ali existentes e da velha cidade romana, jazente em baixo, na margem contrária. Dá por terminada a primeira fase da construção do castelo de Thomar, em tempo recorde, dois anos depois. O restante da construção foi feita faseadamente e durante anos, à medida que a fixação e estabilidade da Ordem se verificava.
Nesse mesmo ano de 1162, em Novembro, D. Fr. Gualdim dá a primeira Carta de Foral aos povoadores instalados na encosta sul do monte do castelo.
O Mestre recupera várias fortalezas na região e dá cartas de foral aos habitantes que se vão instalando, sobre as quais iremos dando notícia, para não alongar a presente.

Em 1170 manda construir a igreja de Santa Maria do Selho de Thomar, mais tarde chamada do Olival, sobre um antigo templo beneditino e que viria a ser o panteão da Ordem. Após um longo período conturbado de reconstruções, alterações e adaptações devido às características geológicas do local e condicionalismos das edificações pré-existentes, foi finalmente terminada em 1195.
Em Junho de 1174 o Mestre concede novo foral a Thomar devido à forte expansão do local, que inclui já a margem direita do rio Nabão.

A treze de Julho de 1190, o já então velho Mestre e seus cavaleiros, juntamente com a população que se refugia dentro das muralhas do castelo, já definitivamente concluído, resiste ao cerco posto pelos muçulmanos, na forte ofensiva do miramolim Abu Yacub al-Mansur. Este vê-se obrigado a desistir do assalto ao castelo, após grandes perdas de homens e animais. Os Templários tinham grandes remédios para grandes males e no caso da enorme diferença numérica, venceram recorrendo à 'guerra biológica' (de que falaremos mais tarde).

A 17 de Abril de 1193, com setenta e cinco anos de idade e trinta e cinco de mestrado do Templo, morre no castelo de Thomar, em consequência de uma grave queda nas muralhas, o Mestre D. fr. Gualdim Pais; um dos mais carismáticos Mestres dos Templários portugueses.
É sepultado na cripta da igreja de Santa Maria do Castelo, situada junto da Porta do Sol.
Terminada a igreja de Santa Maria do Selho em 1195, os seus restos mortais são trasladados para este templo que se torna assim o panteão oficial dos Cavaleiros Templários em Portugal, onde será para sempre lembrado pelos seus monges e Irmãos que, em sinal de respeito e admiração lhe mandam fazer e o colocam num magnífico mausoléu (hoje inexistente).
Devido a obras efectuadas mais tarde (no século XVI) no panteão, que o alteraram de forma vergonhosa no seu conteúdo e no seu aspecto (tendo sido profanados todos os túmulos dos mestres Templários), alguns membros da Ordem recolheram antecipadamente as cinzas de Mestre Gualdim, dividiram-nas por quatro recipientes funerários que foram sepultados simbolicamente em locais diversos, tão queridos do velho Mestre: um nas "Cazas" de Sintra, outro na sua terra natal (Marecos), outro na igreja do Santo Sepulcro de Penha Alva (entretanto já resgatado) e ainda outro na igreja de Santa Maria do Castelo de Thomar.
Na igreja de Santa Maria do Olival ainda se pode ver embutida na parede de uma das capelas laterais, uma lápide trazendo os seguintes dizeres:

"morreu Frei Gualdim, Mestre dos
Cavaleiros do Templo em Portugal,
na era de 1233*, terceiro dos idos
de Outubro. Este castelo de Tomar,
como muitos outros, povoou.
Descanse em paz. Ámen."
____________________________________
* - Este ano corresponde ao de 1195 que, por engano, é dado como a data da morte do Mestre, mas que não é senão a data da trasladação dos seus resto mortais para Santa Maria dos Olivais.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Regra:cap.XIX

Regra dos pobres Cavalleiros do Templo na Cidade Santa de Jerusalem

Que no trato se guarde igualdade.

Capítulo XIX

Nas letras sagradas se lê: "Que se dava a todos, conforme o que a cada hum era necessario". Por isso mandamos, que naõ haja accepçaõ de pessoas, senaõ exame das necessidades.  O que menos necessita, dê graças a Deos, e se naõ entristeça pelo que derem ao outro.  O que necessita mais, humilhe-se por sua fraqueza, e naõ se ensorbebeça na misericordia, que com ella se usa: e assim viviraõ unidos os membros deste religioso Corpo.  Prohibimos a todos a singularidade nas mortificaçoens, e mandamos guardem a vida commua.

Regra:cap.XVIII

Regra dos pobres Cavalleiros do Templo na Cidade Santa de Jerusalem

Que se naõ levantem a Matinas os que se acharem cansados.

Capítulo XVIII

Porque se manifesta naõ ser justo, que se levantem a Matinas, os que se acharem cançados.  Mandamos, que com licença do Mestre, ou do que estiver em seu lugar, descansem; e depois cantem as treze Oraçoens assinaladas; de sorte, que com as vozes se ajuste a attençaõ, pois diz o Profeta: "Cantay ao Senhor sabiamente", e em outra parte: "Em presença dos Anjos cantarey os vossos louvores", mas isto sempre a arbitrio do Mestre.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Languedoc português

Em finais do século XII, D. Sancho I sobe ao trono português, com a idade de 31 anos.
Após a conquista de Silves (1189), dedica-se totalmente à administração dos territórios herdados de seu pai, D. Afonso I.
Começava a obra do povoamento.
As Ordens de Cavalaria, já instaladas no reino, tiveram uma importância capital na ajuda prestada ao monarca.
Porém, a grande força para tamanha empresa veio dos colonos oriundos do sul de França, fugidos ao holocausto promovido pela igreja romana, a que chamaram "a cruzada contra a heresia Cátara".
O vergonhoso genocídio de cristãos contra cristãos.

Nos princípios de 1199, já havia chegado a Portugal, um vasto grupo de colonos francos, que no dizer do próprio D. Sancho, "tinham vindo povoar a minha terra".

" isti Franci venerunt populare in terra mea "

O território da Açafa é doado aos Templários tendo em vista a chegada dessas  novas vagas de colonos, oriundos da Occitânia, refugiados da perseguição religiosa. O monarca oferecia-lhes a liberdade de possuirem terras e de as trabalhar.

" (...) et dent eis ipsum locum cum tanto termino in quo isti Franci et alii qui venturi sunt possint bene vivere et laborare..."

 Os territórios da Açafa, entre Figueiró e o Sever, eram campos ermos, despovoados, incultos: uma terra de ninguém, a não ser de lobos, javalis, veados e outros animais bravios que por lá terão existido em abundância.
Os Templários foram quem primeiro ali se fixou, nas duas fortalezas que inicialmente ergueram e nas duas Comendas ou Perceptorias que, de seguida, estabeleceram.

" Nos primeiros anos do século XIII, chegaram os colonos francos, vindos do Languedoc, para povoarem, arrotearem e cultivarem o território.  É à sombra das fortalezas dos Cavaleiros do Templo e ao abrigo das suas perceptorias que começam a erguer as suas habitações, fundam os primeiros aglomerados populacionais, a que, prioritariamente, dão os nomes das suas terras distantes.

Assim, terão nascido Arez (de Arles), Montalvão (de Montauban), Nisa (de Nice), Tolosa (de Toulouse), todos nomes de cidades do sul de França, da Occitânia."

Regra:cap.XVII

Regra dos Pobres Cavalleiros do Templo na Cidade Santa de Jerusalem

Que se guarde silencio depois de Completas

Capitulo XVII

Acabadas as Completas, he conveniente se vaõ recolher; sahindo de Completas nenhum falle em lugares publicos, senaõ de cousas necessarias; e o que tiver, que fallar com o seu escudeiro seja em voz baixa; e ainda que algumas vezes succederá, que ao tempo, que sahem das Completas, seja preciso, que alguns de vós outros juntos falleis ao Mestre, ou ao que depois delle serve de Superior, do estado da guerra, ou negocios do Mosteiro, por naõ haver tido tempo em todo o dia.  Mandamos pois, que se guarde desta maneira o silencio, porque está escrito: "Que no muito fallar naõ faltará peccado", e em outra parte: "A morte, e a vida estaõ nas maõs da lingoa".  Naquella junta prohibimos as chanças, e palavras ociosas, que ocasiaraõ riso: e mandamos, que se algum tiver fallado com pouca attençaõ, reze, quando se for deitar, hum Padre Nosso com toda a humildade, e devoçaõ.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O inferno de Diogo Fernandes


Muitos pensam que os Templários em Portugal implantavam as suas Comendas automaticamente em resultado das doações obtidas. Tal não era assim.
Na realidade, o processo de criação de uma Comenda era um pouco mais elaborado, obedecendo a determinados critérios e ao escalonamento de objectivos precisos.
Todos os seus elementos tinham de estar em sintonia com esses objectivos e integrados numa determinada estratégia.
Quando assim acontecia, nascia a Comenda.

Mas o que poucos sabem é que havia dois tipos de Comendas Templárias. As oficiais e as secretas.
Debrucemo-nos sobre as segundas. Estas nasciam em lugares considerados de especial interesse para a Ordem, por vezes solicitados ou reivindicados ao poder Real após a sua conquista.
Por vezes até, ainda antes de os mesmos terem sido conquistados.
Como não se constituiam oficialmente, dizia-se que os Templários tinham "Cazas no lugar de..".

Diogo Fernandes, Cavaleiro Templário, tinha sido designado para Chefe de uma dessas "Cazas".
Era um homem bom, inteligente, e com um plano que, no seu entender, tinha de ser posto em prática sem demora. Um plano que fazia parte de um vasto projecto do Templo que aguardava o momento certo para ser executado.
O Chefe Templário não estava disposto a esperar. Não havia tempo.
A experiência tinha de começar.

" - D. Diogo, senhor, ainda é cedo para avançarmos. As gentes ainda não estão preparadas. Para nos respeitarem, ainda terão de nos temer.
- Então vamos prepará-las. Estamos rodeados de servidão e miséria. Não tarda estamos a cometer os mesmos erros dos outros.
- Seja então como desejais. Que Santa Maria nos ajude a todos."

Nas "Cazas" de Diogo Fernandes não se seguia a Regra. A Ordem, secretamente, tinha-os dispensado.
Não havia servos. Havia Irmãos. Verdadeiros Irmãos.
Todos davam o seu melhor, partilhando o trabalho comunitário. Ninguém pagava dízimos ou outro tipo de imposto. Eram senhores do seu destino. Livres de investir no futuro da Comenda, que prosperava, ou de abandoná-la quando quisessem. E continuavam a ser Templários. E, o que era inacreditável naqueles tempos, funcionava!

Mas o sistema feudal, fortemente enraizado, começou a ver neste sistema justo, um perigo para os seus interesses. Muito menos o clero poderia tolerá-lo.
E uma noite, enquanto a milícia se encontrava ausente da Comenda, os lobos atacaram com toda a crueldade e selvajaria.
E todas as "Cazas", todas as colheitas, todas as fábricas e alfaias foram incendiadas. Destruídas.
Os cabecilhas, decididos a acabar com a vida do Chefe Templário, cercaram e invadiram a sua residência acastelada, onde este calmamente os esperava.
Encurralando-o, pegaram fogo aos aposentos e antes de sairem, gritaram-lhe:

"- D. Diogo! Preparai-vos para arder no fogo dos infernos!"

D. Diogo tinha-se preparado.
Os atacantes, com o terror estampado nos rostos, aperceberam-se que não tinham como sair. Todas as saídas estavam trancadas.

"- Para os infernos ireis vós agora! E como certamente não estarei lá para vos ver arder, ardereis aqui mesmo à minha frente para ter a certeza que o vosso castigo se cumpre!"

Diz-se que o sonho de D. Diogo Fernandes se consumiu naquela noite com ele e seus inimigos.
O Templário conhecia tão bem os acessos que trancou, como o que deixou destrancado para si...

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Se tal aconteceu? Existe descrição.
Temos registo no nosso arquivo que nos descreve datas, lugares, e personagens. Não entramos em mais pormenores porque envolve uma outra Ordem que não queremos antagonizar.
Os textos aqui publicados não são de maneira nenhuma apresentados de forma leviana. Destinam-se apenas a acordar o que está adormecido.

Regra:cap.XVI

Regra dos pobres Cavalleiros do Templo na Cidade Santa de Jerusalem

Que a collaçaõ esteja a arbitrio do Mestre

Capítulo XVI

Ao pôr do Sol, ouvido o sinal conforme o costume dessa regiaõ, convem muito, que todos vaõ a Completas; porém antes dellas, desejamos, que tomem huma collaçaõ em Communidade.  Esta refeiçaõ deixamos ao arbitrio do Mestre, que seja de agoa, ou de vinho aguado, como elle o dispuzer, e mandar; porém convem, que isto naõ seja com demasia, e destemperança, mas parcamente; pois vemos, que tambem os sabios se descompoem com o vinho.

Regra:cap.XV

Regra dos pobres Cavalleiros do Templo na Cidade Santa de Jerusalem

Que dem ao Esmoler de cada dez paens hum.

Capítulo XV

Ainda que aos pobres lhes está prometido o premio da pobreza, que he o Reyno dos Ceos; com tudo isso, vós outros, a quem confessa por pobres a Fé Christãa, dareis ao Esmoler o dizimo de todo o paõ, que vos derem.