segunda-feira, 13 de julho de 2015

Alfa Burion (5)



SANTA MARIA DE SIÃO




  No auge da 'reconquista' cristã, Santarém e Lisboa são tomadas aos muçulmanos por El-Rei D. Afonso I de Portugal.
A Ordem do Templo participa com total empenho  no esforço de guerra e instala-se em toda a linha da frente recebendo várias doações do monarca.

"Quando o bispo de Lisboa nos reclama Santarém e El-Rei nos propõe por troca o território de Ceras o Mestre aceita sem que isso nos cause muita admiração. Vamos encontrar uma região que já conhecemos e sabemos abandonada há mais de treze anos. Numa primeira fase instalamo-nos na ruína do velho mosteiro beneditino que fortificamos para  nos valer alguma defesa enquanto no monte fronteiro começamos a construção do castelo a partir da recuperação das ruínas árabes."

Chegados aqui, entramos na segunda parte do velho códice, agora escrita pelos irmãos da Ordem do Templo. Nela, como já referi, estão relatadas as diversas fases da construção daquele que é hoje conhecido como castelo Templário de Tomar e outras estruturas com ele relacionadas.
O fragmento de texto que em seguida vos deixo foi escrito pelo punho do próprio Mestre:

" ... os escribas reais têm por vício dar os nomes às coisas sem atenderem ao real nome das mesmas. Acontece com o que chamam de castelo de Ceras que poderia muito bem ser de Cellas tendo em conta o mosteiro que por ora fortificamos para nossa casa militar mas que não é nem uma coisa nem outra. O castelo que se encontra no cimo do monte  tem por vulgo o nome de Mussudar ou por mais antigo ainda o de Scalaburje segundo a memória dos monges de S. Benedito que a deixaram lavrada nestes antigos escritos. Fronteira ao castelo está a grande Majidaria de que vi igual na terra santa do ultramar aí dedicada ao profeta [...] ...ambos em ruína e muito tomados pelo mato espinheiro. Deste templo escreveram os ditos monges que também eles o usavam em paz e em particular lhe chamavam igreja de Sião e assim continuará. Como é nosso costume atender ao real nome das coisas assim fica decidido também dar à fortaleza que ora reconstruímos neste lugar o mesmo nome de Santa Maria do Sião; e ao rio que lhe corre em baixo manteremos o nome de Tumar. Deixo-vos a vós irmãos mestres no engenho de fábrica militar a tarefa de ambos reerguer e fortificar. Lançareis também nesta memória todos os passos e acontecimentos como eu frei Gualdim Pais mestre português da Ordem do Templo aqui o faço iniciar por minha mão e roboro com meu signal..."

Foram reerguidas as primeiras pedras no início de Março do ano do Senhor de 1160.

Fr. Manuel F. B.
cronista-mór da Ordem

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Alfa Burion (4)


MOÇAB-D'HAR



Não se conhece em pormenor a decadência e o fim da cidade luso-romana de Nabância. Como já referi algumas folhas do códice Kall Murion perderam-se para sempre.
Através dos comentários escritos pelos frades beneditinos que o copiaram, sabemos apenas que era de pequena dimensão e estendia-se ao longo da margem esquerda do rio Nábia. Sabemos também que foi destruída mais que uma vez pelos mesmos bárbaros que saquearam Roma e invadiram depois a Península hispânica.
Neste período, as artes de pedra de Nabância foram aos poucos desaparecendo levadas para outras paragens até ficarem, apenas e só, restos e alicerces.
E desses restos levantaram  depois os freires beneditinos o seu mosteiro.
Entretanto...

" Ao outro lado da margem do rio começaram a chegar as novas gentes vindas de África. Primeiro um marabuto, homem santo, que se instalou numa exígua lapa do afloramento rochoso que fica um pouco mais abaixo da velha torre romana. Depois uma pequena comunidade que se instalou dali colina abaixo até perto da ribeira. Foram estes que em devoção ao velho marabuto lhe edificaram uma cuba para sua habitação. Os mesmos que depois da sua morte ali mesmo ao lado criaram um pequeno cemitério."

(Deste velho eremita pretendo, numa futura publicação, dar notícia da influência que teve na fixação da população moçárabe neste local e da sã convivência com a comunidade beneditina instalada no outro lado do rio.)

Com o tempo, o convívio pacífico entre árabes e cristãos fez com que a pequena comunidade se expandisse constituída principalmente por cristãos convertidos a que vulgarmente chamaram de moçárabes.
Por ser maioritariamente terra destes convertidos tomou o nome de Moçab-d'har.
A dada altura as autoridades muçulmanas julgaram ser justificado mandar construir no morro da torre romana um alcácer para defesa da população que se expandira colina abaixo. Para tal mandaram também murar a partir do reduto militar toda a vertente sul e leste até à margem do rio que na altura baptizaram de Thumart. Com este aumento da área populacional nasce a calçada árabe que conduz ao topo do monte e se divide entre o "castelo" mouro e a "charola" moçárabe.

"É nesta altura que devido ao religioso fervor cristão e árabe se edifica o primeiro templo circular à imagem do original em jerusalém. A Masjid-d'ahriad a que também os beneditinos têm franco acesso. Como curiosidade é o único edifício que fica extra muros embora unido à fortificação pela calçada mourisca que ali bifurca."

 A chamada "reconquista" cristã vai ditar o posterior abandono desta região tendo ambas as comunidades (a moçárabe e a cristã beneditina) se recolhido respectivamente, uma à praça forte de Santarém e outra ao norte do condado Portucalense (provavelmente a Braga).

A importância deste lugar "sagrado" será entretanto transmitida aos Templários pelos monges beneditinos o que terá tido uma influência definitiva na pretensão e posterior aceitação da troca de Santarém pela região de Ceras ou Cellas (Tomar) após a tomada de Lisboa.

Foi este o cenário que Mestre D. Fr. Gualdim encontrou no local quando ali começou a instalar militarmente a Ordem.

Mas isso é algo para vos contar no próximo artigo.


Fr. Manuel F. B.
cronista-mór da Ordem