segunda-feira, 18 de abril de 2016

Alfa Burion (10)


Epílogo



1172 foi um ano decisivo no projecto da Ordem do Templo em Portugal. Devido à dimensão desse projecto, D. Afonso I de Portugal vê-se na necessidade de associar o seu filho D. Sancho (I) para o ajudar à governação do Reino.
Neste mesmo ano recebe e estabelece a Ordem de Santiago e faz-lhe doação do castelo d'a Ruta, sua Vila e termo (Arruda dos Vinhos), na pessoa do primeiro Mestre português D. Rodrigo Álvares, permitindo-lhe a construção do Mosteiro de Santiago do Vilar destinado a acolher as mulheres dos cavaleiros que partiam para a reconquista do Sul do território.

"... foi grande o aconselhamento da Ordem feito ao Rei na necessidade da maior defesa do Reino aumentando o número de Ordens militares e sua distribuição estratégica pelo território conquistado e manutenção das linhas de fronteira. Esta nova Ordem na forma como se estabelece e adere ao grande projecto português bem se pode considerar como a nossa irmandade mais recente logo a seguir à de Avis."

Beneficiando de amplos apoios desta iniciativa Real e o económico da Ordem do Templo, o Mestre Fr. Dom Gualdim empreende a terceira fase da construção das muralhas que, reforçadas com as torres de S. João e S. Miguel e incluindo a nova Porta de Santarém (Mais tarde chamada Porta do Sangue) irão concluir o recinto fortificado do castelo Templário de Tomar. Esta nova área de defesa irá englobar o antigo bairro mourisco agora desactivado, compreendendo uma grande parte da encosta Sul do monte. Aí irá acolher-se em estruturas provisórias a primeira população de artesãos que dividirá o espaço com os monges da Ordem e serviçais enquanto se procede à reconstrução do povoado ribeirinho da várzea a nascente.
O Arco dos Cavaleiros é desmontado e surge no seu lugar a Porta do Sol aberta na nova muralha. Santa Maria do Castelo fica agora 'finalmente dentro de portas'.
Entretanto, no povoado em baixo, renascem do antigo casco urbano moçárabe o novo bairro cristão, a pequena mouraria e as casas dos judeus (judiaria) que Mestre Gualdim manda proteger com uma nova e ampla cerca que do castelo desce até à margem do rio, servida por três acessos: a Porta de Santa Iria (que dava directamente para a ponte romana), o Postigo dos Mouros (que a Norte dava acesso do pequeno bairro mourisco para o que é agora o 'recanto' do Mouchão) e o Postigo da Ribeira (que a Sul, saindo da judiaria dava para o caminho de Santarém através da desaparecida Ponte da Ribeira). 

"...aqui a meio da agora Corredoura que da ponte do rio leva à calçada do castelo desmontam-se os restos da antiga mesquita e constrói-se a primeira igreja dedicada a S. João Baptista aproveitando-se a base do alminar para edificar a torre sineira a que é dado o curioso nome de Magdala ficando a ligar ambas esta galilé que em forma de corredor coberto vai desde o frontal do templo e se estende à torre cercando-a por completo."

Procede-se à construção de novos açudes e engenhos de água e começa-se a desbravar e arrotear a terra para cultivo em toda a zona ao redor do assentamento cristão. No vale da ribeira, a Sul do monte, os terrenos e as colinas fronteiras (numa delas é construída a capelinha de Santa Sofia) são reservadas para os freires da Ordem que os exploram com a costumeira mestria, dedicando-se aí não só ao cultivo de hortícolas e frutos como também à apicultura e silvicultura (embora em pequena escala) e, sobretudo, às plantas medicinais com as quais abastecem a botica.

"As velhas estruturas mouriscas são refeitas e a sua utilização retomada para o nosso uso. Todo o vale é cultivado sendo de muito bom amanho e de excelente qualidade as suas colheitas. As frutas silvestres e o mel das abelhas adoçam as nossas cozinhas e as plantas medicinais são um bem corrente para as mazelas do corpo assim como para a morte do mesmo se usadas para fins militares..."

É dado por terminado o castelo Templário de Tomar a 23 de Abril de 1186. Quatro anos depois, em 1190, dá-se a prova de fogo do sistema defensivo e da sua guarnição.

O rei de Marrocos Abu Yusuf Yakub numa ofensiva militar demolidora, retoma todas as praças fortes do Algarve e grande parte do Alentejo detendo-se apenas em Tomar que cerca e ataca durante seis dias arrasando tudo à volta da fortaleza Templária e chegando a entrar a Porta de Santarém onde são sangrentamente rechaçados. O restante arraial sarraceno começou entretanto a ser dizimado por uma misteriosa doença e o que restou do seu grande exército acabou por debandar derrotado e destroçado em direcção ao Sul.

"A robustez da construção militar defendida pela valentia e mestria em combate dos cavaleiros Templários e seus soldados assim como o conhecimento e fabrica dos poderes letais dos mestres boticários foram factores decisivos para a boa fortuna na repulsa do cerco e dos ataques aguerridos das hostes muçulmanas causando-lhes uma derrota mortal..."

Os Cavaleiros Templários Portugueses ficaram na História como lendários defensores do castelo de Tomar e do Reino a norte do Tejo.
Foi, sem dúvida, devido à valentia, engenho e mestria dos nossos Irmãos de então que Tomar renasceu desse episódio histórico e floresceu até à cidade que é hoje.

E em Tomar ficou, para além da memória da Ordem e da sua herança Espiritual, todo o respeito do Mundo pelo que foram e são os Cavaleiros Templários.


Fr. Manuel F. B.
cronista-mór da Ordem