domingo, 8 de dezembro de 2019

sábado, 21 de setembro de 2019

Tombo:LXXIII


Documentos dos Templários Portugueses
guardados na Torre do Tombo


Dezembro de 1230

Carta de doação da Torre de Alfarofe
feita por Martim Mendes e sua mulher D. Domingas
à Ordem do Templo

"Saibam todos os presentes e por vir que eu Martim Mendes, juntamente com minha mulher Dona Domingas, damos e concedemos aos freires do Templo a torre de Alfarofe, com os seus termos, assim como nós os temos confirmados por carta do concelho de Elvas. No dia de Santo Estêvão, no mês de dezembro. E quem vier contra este fato seja maldito de Deus. Amén. E pague 300 maravedis aos sobreditos freires do Templo. E isto foi feito estando presentes o alcaide D. Martins, Gil Rodrigues, João Martins, irmão do alcaide, Domingos Tavira, Paio Martins, parente de Gil Rodrigues, Mem Coelho, Estêvão, carpinteiro, Gonçalo Pais, besteiro, Martim Garcia, homem da alcaidaria. João Martins."

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

al-Faghar (9)


Santa Maria de Aqua-Lupus

Ermida de "Guadalupe"
(Raposeira, Vila do Bispo)

Neste nono e último artigo da série al-Faghar vamos falar daquele que tem sido o mais desconhecido e mal interpretado templo religioso do barlavento Algarvio; a antiga ermida de Nossa Senhora de Guadalupe.

De época anterior à sua construção temos uma referência documental que nos diz:

"No caminho peregrino que conduz ao Cabo Sagrado há no termo de Lagos uma fonte na ribeira de Lupe que tomou o seu nome de uma pedra com forma de cabeça de lobo de onde jorra copiosamente uma água claríssima e muito fresca onde os peregrinos se costumam saciar e fazer as ablações afirmando que a dita tem dons de cura."

Da mesma época, um outro documento revela-nos:

"...na fonte do Lobo a poente do termo de Lagos há duas pedras muito antigas em cujas inscrições se lê AQUA em uma e na outra LUPUS : as quais se crê terem dado o nome ao lugar."

Parece-nos ser esta a origem etimológica da actual "Guadalupe" que, da romana AQUA LUPUS, teria evoluído para Wadi-Lupe (vale ou ribeira de Lupe) no tempo dos árabes. Não sabemos quando nem porquê foi feita a ligação à lenda de Guadalupe mas suspeitamos que a semelhança entre os nomes teria dado origem a este erro. Ou haverá mesmo um elo oculto, uma vez que o culto a Guadalupe já vem da época visigoda?

Sabemos, isso sim, por constar dos nossos arquivos, que em 1315 se estabeleceram no local alguns irmãos Templários franceses* que ali edificaram "às suas custas" a ermida dedicada a Santa Maria Madalena e o pequeno albergue contíguo, de apoio aos peregrinos, junto à "milagrosa" Fonte de Lupe.

(*- Estes Cavaleiros franceses  haviam sido acolhidos pelos Templários Portugueses aquando da suspensão da Ordem em 1309 e na sequência das perseguições movidas por Filipe IV e Clemente V, refugiando-se uns nas ilhas (ver "Navegações (IV) - A frota de La Rochelle") e outros em alguns pontos no reino do Algarve. Assim que foram transferidos para Castro Marim, a ermida deixou de ser consagrada a Maria Magdalena.)

Entre outras referências mais tardias, Gomes Eanes de Zurara diz na sua "Crónica dos Feitos da Guiné" em meados do século XV:

"Dos outros Mouros que filharam en Tider, envyarom Lançarote e os outros capitães, [...] e a Santa Marya de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”


Templários com a típica cota de malha num capitel da ermida.

Em 1317 fizeram-se na ermida os primeiros enterramentos de Cavaleiros Templários 'em túmulo com tampa de pedra lavrada' como consta dos nossos arquivos e em 1319 já o piso interior se achava lotado, pelo que se registaram alguns sepultamentos no exterior.

Com a atribuição de Castro Marim para Sede da Ordem de Cristo, estes irmãos Cavaleiros foram para aí transferidos, tendo a ermida de Santa Maria de Lupe ficado à guarda de alguns monges que lhe fizeram a primeira reforma. Foi nesta altura que o bispo de Silves mandou retirar todas as lápides do interior da ermida, fazendo-as transportar para Lagos**, assim como muitas outras pedras que identificavam a Ordem do Templo, tendo ficado apenas algumas, entre elas as do fecho das abóbadas.

(**- Esses testemunhos jazem hoje sob os destroços de uma casa senhorial arrasada pelo terramoto e sepultada pelo maremoto de 1755)

Pedra de fecho de abóbada com figuração esotérica
Templária, onde se pode "ler" simbologia referente à
transmissão oral da tradição histórica e da linhagem de
Maria Madalena.

Como curiosidade retirada do nosso arquivo e relacionada com estes cavaleiros franceses, acrescentamos o facto de ter sido um dos monges de Santa Maria de Lupe (descendente de Ludovico IV e de sua mulher Elisabeth de Bratislava) quem mandou construir a primitiva igreja de Santa Elisabete na Boca do Rio, Budens, não muito longe de Guadalupe.
Ruínas da igreja de Santa Elisabete situada na Boca do Rio, Budens,
implantada na área arqueológica da cidade Luso-romana, cuja curiosa
referência na nossa documentação, lhe atribui o nome de Tessa-Nabal.
(Tessa, Tensa ou Tersa; a terceira letra não é legível no original)


Fr. João do Paço
Cronista-Mor

sexta-feira, 19 de julho de 2019

al-Faghar (8)


O al-Faris Templário




Ainda as forças cristãs lutavam nos últimos redutos da cidade de Silves e já El-Rei D. Sancho I tomava medidas para salvaguardar os habitantes muçulmanos que quisessem sair do inferno em que se tinha tornado nas últimas horas aquela presa de guerra, ainda nas garras dos cruzados nórdicos, permitindo a alguns cavaleiros portugueses que levassem  em segurança pessoas e bens para terras vizinhas.


"Coube a Martim Roque, cavaleiro da ordem do Templo, escoltar o pequeno grupo de Raissa, a filha de um rico comerciante, que tinha conseguido reunir o tesouro da família escondendo-o numa das mulas de transporte. Andando em cuidados por vales e montes chegaram à margem esquerda do rio Wad'luqta (1) que atravessaram a vau, a montante do castelo de Munt'aqût (2), para onde seguiam, quando foram avisados de que ainda havia alguns soldados cruzados a pilhar e a destruir o reduto muçulmano. De pronto o cavaleiro tomou medidas para proteger as gentes que seguiam sob sua escolta que tiveram de se esconder numa furna da serra enquanto ele e os seus companheiros de armas que eram dois sargentos de que não sabemos os nomes e um soldado muçulmano se acercaram do castelo para fazer frente aos saqueadores. Deu-se imediata escaramuça de que resultou a debandada dos nórdicos, não sem estes terem atingido gravemente Martim Roque pelas costas com um virote de besta que lhe causou a morte com grande agonia."

Relatos posteriores dão conta que estes refugiados mouros se teriam estabelecido não muito longe do castelo destruído e entretanto abandonado, num local a que teriam dado o nome de al-Faris, (o cavaleiro) em homenagem ao martírio do guerreiro Templário.

Lugar que é hoje a bonita aldeia do Alferce.

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(1) - Wad'luqta (Vale do abandonado?) é actualmente a ribeira de Odelouca. Na época da narrativa, era um rio navegável até ao sopé do monte onde estava implantado o castelo de Montagud. Foi por ali que os cruzados nórdicos subiram e desembarcaram para atacar de surpresa o castelo/atalaia mourisco, nas vésperas do cerco de Silves.

(2) - Munt'aqût (o Montagud descrito pelo cruzado anónimo que acompanhou o cerco e a tomada de Silves) fica onde está hoje o "castro" do Alferce, na serra de Monchique. Limpa toda a vegetação pela autarquia de Monchique e estudada toda a área do "castro" pelo jovem arqueólogo Fábio Capela, os vestígios postos a descoberto vieram a revelar estruturas do castelo, algumas visíveis e outras ainda subterradas, mas perceptíveis pelas elevações no terreno. 

Planta do alcácer do castelo de Montagud


Lendas relacionadas

Nos ditos relatos vem uma lenda que fala de um tesouro trazido nesta ocasião por uma moura fugida de Silves e que estaria escondido numa gruta da serra de Monchique. Tesouro esse, ainda não encontrado.

Também dessa altura, encontramos hoje na Serra de Monchique, uma outra lenda de um lugar perto, a que chamam Poço da Serra e que aqui transcrevemos, com a devida vénia aos autores.

Lenda do poço da serra

"Em tempos que já lá vão, havia uma moura lindíssima que dançava no Palácio das Varandas, na cidade árabe de Silves. Seu pai, um mestre sufi, fizera-a jurar que, dele guardaria o Espírito quando chegasse a hora de entregar a alma a Allah.

Um dia, Silves viu-se cercada pelos cruzados e a bela moura foi forçada a fugir e esconder-se na Serra de Monchique, até que o cerco acabasse. Mas a cidade caiu e nas suas muralhas destruídas, caiu ferido de morte o mestre sufi. Um cavaleiro cristão encontrou-o moribundo. Sabendo da jura, promete-lhe procurar a filha.

Vagueando pela serra, a bela moura aqui veio ter. Esperou, desesperou e em lágrimas se esvaiu.
O cavaleiro cansado de a procurar, veio ao poço matar a sede. Foi quando vindo da água, uma voz se ouviu:

- Trouxeste-me o Espírito do meu amado mestre. Como te agradecer?
- Dança para mim, graciosa moura.
-Dançaremos sempre para ti, Cavaleiro...

Desses tempos, apenas sobrevive o velho poço. 
...Será?

Diz-se que nesta casa, em noites de animação e magia, a moura aparece disfarçada e dança, cheia de graça, para o seu cavaleiro.

Aqui, no Poço da Serra..."

Lenda curiosa, que transpira no diálogo, essências de sufismo e templarismo, numa mistura de passado e presente.

Que, encantadas, as belas mouras dancem sempre para os cavaleiros de todos os Templos...



Fr. João do Paço
Cronista-Mor

terça-feira, 30 de abril de 2019

al-Faghar (7)


Estombar - "estes, que tombaram"

Estombar, vila ribeirinha situada na margem esquerda do Arade, a montante de Portimão, deve o seu topónimo "cristão" ao hospital de campanha ali instalado pelos Templários na sequência dos ataques que levaram à primeira tomada da cidade árabe de Silves em 1189. Era, à época, banhada por um braço de rio e servida por um ancoradouro que podia receber, na maré alta, embarcações de médio porte. Nesse lugar, no início da dita campanha, acostaram os cavaleiros do Templo que ali se acantonaram após terem tomado a atalaia fortificada.

Estombar - Localização da torre/atalaia e do cemitério, hoje desaparecidos

Durante e após a tomada da praça de guerra de Silves, a Estombar foram chegando os Templários feridos para serem tratados, sendo os mortos sepultados no "campo" da pequena mesquita (que existia onde é hoje a Igreja matriz), conforme rezam os Livros de Guerra do Templo:

"Estes, que tombaram na tomada da cidade (de Silves), aqui jazem, Irmãos nas batalhas da vida, Irmãos no eterno descanso. Que a terra consagrada de Xanabur lhes seja leve."

Uma das estelas funerárias que testemunham
a presença Templária em Estombar, Algarve

Xanaburj ou Torre de Xanar, era também designada por Xanabus ou "castelo" de Assan Abu, conforme vem nas descrições da época. São ainda mencionadas as "Fontes de Assan" (hoje Fontes de Estombar), em Xanar'burj, no poema adaptado de Al-Bideru Bin Al-Muni, "Rumo ao Paraíso", já aqui publicado por nós.

Estombar, a antiga "Xanabus" mourisca, ficou na História Militar da Ordem do Templo como o lugar santo que, em todo o actual Algarve, mais túmulos de Irmãos nossos acolheu, só ultrapassado, quase dois séculos depois e em tempo da Ordem de Cristo, pelo de Castro Marim.

Fr. João do Paço
Cronista-Mor

segunda-feira, 22 de abril de 2019

al-Faghar (6)


A primeira "Cruz de Portugal"

(esboço feito a partir do original)


Oferecida, em 1153, por S. Bernardo de Claraval, pouco antes de este falecer (e por sugestão do seu querido Irmão Suger), aos monges "brancos" de Cister da primitiva Santa Maria de Alcobaça,  e ainda antes de estes receberem a doação oficial do couto por parte de D. Afonso I, a Cruz de Portugal seria um importante símbolo da protecção divina do recém criado Reino de Portugal.

Carta de Doação do couto de Alcobaça aos monges de Cister

Entregue a sua custódia ao Mestre Fr. Hugo Martim que a levou e depositou na igreja de Santa Maria da Alcáçova, em Santarém, na altura Sede da Ordem do Templo em Portugal, ali se manteve até ser mudada para Tomar para ser colocada no Terreiro de Santiago do castelo Templário de Santa Maria de Sião, onde esteve até às vésperas da partida para a primeira tomada de Silves.

Retirada da sua base octogonal, foi levada com a esquadra Templária até terras do Algarve onde aguardou, na foz do Arade, que Silves fosse tomada pelos cristãos. Esteve depositada na convertida mesquita da cidade até à retoma desta por parte dos árabes dois anos depois, quando desapareceu. Pensou-se sempre que tinha sido destruída nessa altura, pois nunca mais se soube do seu paradeiro.

Sabemos agora que foi recolhida durante os ataques e escondida nos subterrâneos do castelo. Para o seu recente resgate contribuíram bastante os indícios históricos que nos foram deixados, um pouco dispersos, e que, do "cerrado dos cães" do castelo de Tomar nos levaram à "cisterna dos cães" do castelo de Silves. Afinal não eram "cães", eram "leões".

Talvez esta primitiva Cruz de Portugal tenha justificado a demora nas nossas publicações. Tendo-lhe apanhado o rasto, só parámos quando a encontrámos. Recuperada, tratada e devidamente catalogada, é o mais recente item que enriquece hoje o já vasto espólio histórico da Ordem dos Cavaleiros Templários Portugueses.

O que é do Templo, ao Templo regressa.

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Obs.
- O nosso profundo agradecimento ao Sr. J. Cercas por nos ter facilitado o acesso a partir do seu quintal e nos ter indicado, no túnel, a pedra com a marca dos "leõezinhos".
- A divulgação de relíquias sagradas da Ordem serão, por diversas razões (não só de segurança mas da própria sacralidade das mesmas), sempre aqui representadas por esboços feitos a partir dos originais.

Fr. João do Paço
Cronista-Mor

domingo, 6 de janeiro de 2019

al-Faghar (5)



Maldição Sibilina



"16 de Julho de 1189. Domingo. Reunimos todos os barcos na pequena enseada e desembarcámos na minúscula praia a coberto do imenso canavial. Ainda não nascera o sol e já nos preparávamos para a cerimónia dominical onde seríamos abençoados pelo irmão capelão Bernardo Viegas e pelo comandante de esquadra o cavaleiro João de Ourém. Assim que os primeiros raios de sol despontaram, todos os irmãos do Templo colocaram o joelho no chão em sinal de reverência e oraram a Santa Maria, juntos, ao lado do poço do arco e em redor do marco de pedra que havia sido esculpido horas antes e que, enterrado naquele chão sagrado, simbolizava aquela reunião espiritual. Aquela terra já havia sido nossa antes, num passado distante..."



A pequena enseada onde fundearam as naus Templárias, a poente da foz do Arade

O marco de pedra com o símbolo do Templo que havia ficado no cimo daquela pequena falésia, conhecida hoje como ponta de João d'Arenz (corruptela de Ourém), resistiu ao passar do tempo como testemunho da nossa presença em terras do al-Garb ainda muçulmano. Testemunho mudo do grupo de monges-guerreiros em recolhimento, comungando fraternalmente da bênção missal, recebendo do comandante com entusiasmo as palavras de incentivo para a missão militar que se aproximava; a primeira tomada de Silves. Alguns não voltariam...

O local onde se realizou a cerimónia. Ao lado, tapado pela vegetação, o "poço do arco".

Este testemunho Templário esteve mais de oitocentos anos naquela ponta da falésia, até que alguém o levou recentemente. E esteve sempre lá por uma razão... Silves esteve apenas dois anos nas mãos dos cristãos. Foi reconquistada em 1191 pelas forças do califa Abu Iuçufe Iacube Almançor e todos os vestígios da presença cristã foram apagados. Bem, quase todos.

Ao tomar conhecimento da presença do marco Templário o novo alcaide de Silves mandou parti-lo e deitá-lo ao mar mas a Sibila (enigmática personagem que se havia refugiado na serra de Monchique e voltado à cidade agora retomada), intercedeu e propôs poupar tal testemunho. Dizem as crónicas árabes que...

agora desaparecido marco Templário, com a cruz encimada pelo C "aspado"

"A Sibila de Silves ter-se-ia oposto à sua destruição. Teria optado antes por lhe lançar uma terrível maldição que perduraria por séculos. Segundo as suas palavras, essa maldição cairia sobre os cristãos que tentassem recuperar essa pedra. Nenhum muçulmano lhe tocaria."

Não somos de acreditar piamente nessas coisas de maldições mas, pelo sim pelo não, nunca reclamámos tal pertence...

Fr. João do Paço
Cronista-Mor