terça-feira, 30 de abril de 2019

al-Faghar (7)


Estombar - "estes, que tombaram"

Estombar, vila ribeirinha situada na margem esquerda do Arade, a montante de Portimão, deve o seu topónimo "cristão" ao hospital de campanha ali instalado pelos Templários na sequência dos ataques que levaram à primeira tomada da cidade árabe de Silves em 1189. Era, à época, banhada por um braço de rio e servida por um ancoradouro que podia receber, na maré alta, embarcações de médio porte. Nesse lugar, no início da dita campanha, acostaram os cavaleiros do Templo que ali se acantonaram após terem tomado a atalaia fortificada.

Estombar - Localização da torre/atalaia e do cemitério, hoje desaparecidos

Durante e após a tomada da praça de guerra de Silves, a Estombar foram chegando os Templários feridos para serem tratados, sendo os mortos sepultados no "campo" da pequena mesquita (que existia onde é hoje a Igreja matriz), conforme rezam os Livros de Guerra do Templo:

"Estes, que tombaram na tomada da cidade (de Silves), aqui jazem, Irmãos nas batalhas da vida, Irmãos no eterno descanso. Que a terra consagrada de Xanabur lhes seja leve."

Uma das estelas funerárias que testemunham
a presença Templária em Estombar, Algarve

Xanaburj ou Torre de Xanar, era também designada por Xanabus ou "castelo" de Assan Abu, conforme vem nas descrições da época. São ainda mencionadas as "Fontes de Assan" (hoje Fontes de Estombar), em Xanar'burj, no poema adaptado de Al-Bideru Bin Al-Muni, "Rumo ao Paraíso", já aqui publicado por nós.

Estombar, a antiga "Xanabus" mourisca, ficou na História Militar da Ordem do Templo como o lugar santo que, em todo o actual Algarve, mais túmulos de Irmãos nossos acolheu, só ultrapassado, quase dois séculos depois e em tempo da Ordem de Cristo, pelo de Castro Marim.

Fr. João do Paço
Cronista-Mor

segunda-feira, 22 de abril de 2019

al-Faghar (6)


A primeira "Cruz de Portugal"

(esboço feito a partir do original)


Oferecida, em 1153, por S. Bernardo de Claraval, pouco antes de este falecer (e por sugestão do seu querido Irmão Suger), aos monges "brancos" de Cister da primitiva Santa Maria de Alcobaça,  e ainda antes de estes receberem a doação oficial do couto por parte de D. Afonso I, a Cruz de Portugal seria um importante símbolo da protecção divina do recém criado Reino de Portugal.

Carta de Doação do couto de Alcobaça aos monges de Cister

Entregue a sua custódia ao Mestre Fr. Hugo Martim que a levou e depositou na igreja de Santa Maria da Alcáçova, em Santarém, na altura Sede da Ordem do Templo em Portugal, ali se manteve até ser mudada para Tomar para ser colocada no Terreiro de Santiago do castelo Templário de Santa Maria de Sião, onde esteve até às vésperas da partida para a primeira tomada de Silves.

Retirada da sua base octogonal, foi levada com a esquadra Templária até terras do Algarve onde aguardou, na foz do Arade, que Silves fosse tomada pelos cristãos. Esteve depositada na convertida mesquita da cidade até à retoma desta por parte dos árabes dois anos depois, quando desapareceu. Pensou-se sempre que tinha sido destruída nessa altura, pois nunca mais se soube do seu paradeiro.

Sabemos agora que foi recolhida durante os ataques e escondida nos subterrâneos do castelo. Para o seu recente resgate contribuíram bastante os indícios históricos que nos foram deixados, um pouco dispersos, e que, do "cerrado dos cães" do castelo de Tomar nos levaram à "cisterna dos cães" do castelo de Silves. Afinal não eram "cães", eram "leões".

Talvez esta primitiva Cruz de Portugal tenha justificado a demora nas nossas publicações. Tendo-lhe apanhado o rasto, só parámos quando a encontrámos. Recuperada, tratada e devidamente catalogada, é o mais recente item que enriquece hoje o já vasto espólio histórico da Ordem dos Cavaleiros Templários Portugueses.

O que é do Templo, ao Templo regressa.

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Obs.
- O nosso profundo agradecimento ao Sr. J. Cercas por nos ter facilitado o acesso a partir do seu quintal e nos ter indicado, no túnel, a pedra com a marca dos "leõezinhos".
- A divulgação de relíquias sagradas da Ordem serão, por diversas razões (não só de segurança mas da própria sacralidade das mesmas), sempre aqui representadas por esboços feitos a partir dos originais.

Fr. João do Paço
Cronista-Mor