quinta-feira, 22 de agosto de 2019

al-Faghar (9)


Santa Maria de Aqua-Lupus

Ermida de "Guadalupe"
(Raposeira, Vila do Bispo)

Neste nono e último artigo da série al-Faghar vamos falar daquele que tem sido o mais desconhecido e mal interpretado templo religioso do barlavento Algarvio; a antiga ermida de Nossa Senhora de Guadalupe.

De época anterior à sua construção temos uma referência documental que nos diz:

"No caminho peregrino que conduz ao Cabo Sagrado há no termo de Lagos uma fonte na ribeira de Lupe que tomou o seu nome de uma pedra com forma de cabeça de lobo de onde jorra copiosamente uma água claríssima e muito fresca onde os peregrinos se costumam saciar e fazer as ablações afirmando que a dita tem dons de cura."

Da mesma época, um outro documento revela-nos:

"...na fonte do Lobo a poente do termo de Lagos há duas pedras muito antigas em cujas inscrições se lê AQUA em uma e na outra LUPUS : as quais se crê terem dado o nome ao lugar."

Parece-nos ser esta a origem etimológica da actual "Guadalupe" que, da romana AQUA LUPUS, teria evoluído para Wadi-Lupe (vale ou ribeira de Lupe) no tempo dos árabes. Não sabemos quando nem porquê foi feita a ligação à lenda de Guadalupe mas suspeitamos que a semelhança entre os nomes teria dado origem a este erro. Ou haverá mesmo um elo oculto, uma vez que o culto a Guadalupe já vem da época visigoda?

Sabemos, isso sim, por constar dos nossos arquivos, que em 1315 se estabeleceram no local alguns irmãos Templários franceses* que ali edificaram "às suas custas" a ermida dedicada a Santa Maria Madalena e o pequeno albergue contíguo, de apoio aos peregrinos, junto à "milagrosa" Fonte de Lupe.

(*- Estes Cavaleiros franceses  haviam sido acolhidos pelos Templários Portugueses aquando da suspensão da Ordem em 1309 e na sequência das perseguições movidas por Filipe IV e Clemente V, refugiando-se uns nas ilhas (ver "Navegações (IV) - A frota de La Rochelle") e outros em alguns pontos no reino do Algarve. Assim que foram transferidos para Castro Marim, a ermida deixou de ser consagrada a Maria Magdalena.)

Entre outras referências mais tardias, Gomes Eanes de Zurara diz na sua "Crónica dos Feitos da Guiné" em meados do século XV:

"Dos outros Mouros que filharam en Tider, envyarom Lançarote e os outros capitães, [...] e a Santa Marya de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”


Templários com a típica cota de malha num capitel da ermida.

Em 1317 fizeram-se na ermida os primeiros enterramentos de Cavaleiros Templários 'em túmulo com tampa de pedra lavrada' como consta dos nossos arquivos e em 1319 já o piso interior se achava lotado, pelo que se registaram alguns sepultamentos no exterior.

Com a atribuição de Castro Marim para Sede da Ordem de Cristo, estes irmãos Cavaleiros foram para aí transferidos, tendo a ermida de Santa Maria de Lupe ficado à guarda de alguns monges que lhe fizeram a primeira reforma. Foi nesta altura que o bispo de Silves mandou retirar todas as lápides do interior da ermida, fazendo-as transportar para Lagos**, assim como muitas outras pedras que identificavam a Ordem do Templo, tendo ficado apenas algumas, entre elas as do fecho das abóbadas.

(**- Esses testemunhos jazem hoje sob os destroços de uma casa senhorial arrasada pelo terramoto e sepultada pelo maremoto de 1755)

Pedra de fecho de abóbada com figuração esotérica
Templária, onde se pode "ler" simbologia referente à
transmissão oral da tradição histórica e da linhagem de
Maria Madalena.

Como curiosidade retirada do nosso arquivo e relacionada com estes cavaleiros franceses, acrescentamos o facto de ter sido um dos monges de Santa Maria de Lupe (descendente de Ludovico IV e de sua mulher Elisabeth de Bratislava) quem mandou construir a primitiva igreja de Santa Elisabete na Boca do Rio, Budens, não muito longe de Guadalupe.
Ruínas da igreja de Santa Elisabete situada na Boca do Rio, Budens,
implantada na área arqueológica da cidade Luso-romana, cuja curiosa
referência na nossa documentação, lhe atribui o nome de Tessa-Nabal.
(Tessa, Tensa ou Tersa; a terceira letra não é legível no original)


Fr. João do Paço
Cronista-Mor